Reconstituição fotográfica

Algumas reconstituições realizadas com Hugin, que permite juntar diversas fotos em um só panorama. As fotos foram tiradas lateralmente, com um metro de distância, aproximadamente, entre cada uma. O sítio é a Toca do Pepino, em Morro do Chapéu, Bahia.



Máscaras 2

O Museu de Arqueologia e Etnologia de Salvador, instalado na primeira faculdade de medicina de Salvador, apresenta uma pequena exposição sobre o ritual indígena do Toré, compartilhado pela maioria das populações indígenas do Nordeste do Brasil.

 

A realização do ritual foi utilizada ao longo do século 20 como marcador étnico para reconhecer o caráter original dos grupos que reinvidicavam a sua origem indígena na região Nordeste. O ritual é dedicado aos Encantados, Índios vivos que se encantaram, e que são particularmente ligados às cachoeiras. Nos Pankararu, as antigas cachoeiras de Itaparica e Paulo Alfonso (hoje transformadas em barragens) eram habitadas pelos primeiros Encantados. Nos Kiriri, no entando, o Toré não era mais realizado, e foi novamente ensinado.

Cada Encantado toma forma com um Praiá, um vestimento ceremonial único. É realizado pela pessoa que recebeu a tarefa de zelar pela guarda do Encantado em sonho, na forma de uma semente. A máscara e a saia estão feitas de fibra de caroá ou de ouricuri, duas plantas nativas do Nordeste. A aparência geral do Praiá leva facilmente até uma série de pinturas realizadas na Toca do Pepino: um corpo se afinando, no qual a cabeça não aparece, salvo no casos onde sobresaia de maneira clara – quando uma máscara é utilizada ou não.

 

Visualmente, a idéia é tentadora. A presença de Índios Maracás na região da Chapada é atestada em 1673 na ocasião da sua derrota em frente aos Portugueses. Pertencentes ao tronco Cariri, estavam então ligados ao povos que moravam nas margens do Rio São Francisco, cujos atuais descendentes são hoje Pankararu, Pankararé, Kiriri, etc. A existência de uma forma de ritual similar ao Toré, ou mais simplesmente de Encantados, é plausível.

Mas, quais são os fundamentos da hipotese da representação de personagens com máscaras? Não são muitos. Mas são numerosas perguntas:

* A definição do Toré como instrumento de identificação étnica é recente. Ela permite realmente de trabalhar este problema em periódos mais remotos, anteriores à chegada dos Portugueses na região?
* A relação entre Encantados (Makhián) e arte rupestre foi estabelecida para os Krenak, entre outros lugares na Serra Takrukkrak (Minas Gerais). Podemos considerar que se trata de um fenômeno mais amplo, que alcança outras étnias?
* A presença ou a ausência de uma máscara, além da saia, tem uma significação precisa que poderia nos ajudar a entender melhor a relação entre as pinturas e os Encantados na região?

Desta forma, os dois limites da etnoarqueologia estão de novo identificadas: do ponto de vista cronológico, é perigoso utilizar conceitos modernos para explicar sociedades do passado (e o fato de elas serem indígenas não importa), enquanto do ponto de vista geográfico, também é perigoso apagar os milhares de quilômetros que separam Krenak e Pankararu, sob o pretexto que era caçadores-colhedores de língua macro-jê.

Caderno v0.01

Uma primeira semana de escavações em maio de 2009 permitiu coletar os dados necessários para tentar construir a primeira rede de pinturas rupestres da Toca do Pepino.
Cada figura humana identificada no sítio foi vectorizada. Foram depois numeradas, de 1 até 237. Para visualizar a rede, usei um plugin gratis para Excell, chamado NodeXL. Permite utilizar diretamente os dados do programa, de visualizar graficamente os resultados e de calcular algumas medidas. Não é tão potente quanto um verdadeiro programa de análise das redes, mas é de fácil utilização.

Primeira Rede

Baseada na tipologia elaborada in situ, uma primeira visualização da rede apontou os diversos tipos de figuras, identificadas de T01 à T16. As figuras inclassificáveis foram eliminadas para facilitar a leitura. As ligações em cores indicam os casos de superposição (em azul), os casos de objetos identicos (em verde) e aqueles onde duas figuras de tipos diferentes aparecem na mesma cena (em amarelo):

 

 

A repartição das figuras pode induzir ao erro, por causa do número de cenas nas quais aparecem muitos personagens. Assim, a importância do tipo 5 (figuras com cabeça de caju) poderia vir do fato que geralmente estão em grupos. No entanto, uma repartição baseada no número de cenas mostra a mesma distribuição:

A primeira vista, então, trata-se de um distribuição em “escala livre”. Num segundo momento, a rede foi reconstruida com base em novos elementos: desta vez, apenas as características gráficas de cada figuras, e não mais o seu tipo, foram cnsideradas. 5 elementos foram guardados: decorações no corpo, desenho dos olhos, desenho da boca, presença de objeto e desenho das articulações (cotovelo ou joelho):

As figuras isoladas foram relevadas com uma ligação para elas mesmo (NodeXL não deixa aparecer nós que não tenham ligações). Nesta base, algumas medidas da rede foram calculadas:

 

Centralidade

A medida de Centralidade de Intermediação é a mais interessante de todas. Ela identifica diversas figuras situadas na beira dos grandes conjuntos. E no meio delas, encontramos elementos característicos de outros sítios do Nordeste:

Na esquerda, duas figuras encontradas na Toca do Pepino. Na direita, três figuras de Carnaúba dos Dantas, na região do Seridó.

Máscaras

Na etnoarqueologia, as sociedades indígenas contemporâneas fornecem informações que permitem entender melhor os achados arqueológicos. Eu não gosto muito da idéia, porque transmite o velho princípio colonial segundo o qual estes selvagens nunca evoluiram de verdade desde a idade da pedra. Ou pelo menos, nada que fosse deles mesmo. Não acho que este tipo de perspectiva possa levar alguém a fazer boas perguntas em frente aos problemas da pré-história (ou da vida em geral, mas estou me afastando do assunto).

A permanência material de situações sociais em diversos lugares ou momentos da história não significa que o seu conteúdo seja identico. Por exemplo, o solstício de inverno coincide com a data de nascimento de uma longa lista de divindades, de Bacchus até Jesus, passando por Krishna, embora o conteúdo dos rituais tenha mudado dramaticamente ao longo dos séculos (e ainda há provavelmente hoje pessoas festejando umas bacchanais na moda do século 21). Interpretando as sociedades pré-históricas a partir das sociedades de hoje, tomamos o risco de confundir o sal e o açúcar, e a torta de maçã se torna incomestível.

Mas mesmo assim, às vezes, algumas comparações podem se revelar interessantes. É o caso de um tipo particular de figuras humanas que aparecem no sítio da Toca do Pepino:

 

 

A primeira vista, se trata bem de um ser humano, cujo braços estão colocados de forma peculiar, como se fossem nadadeiras de peixe. O corpo é forte, inteiramente pintado de vermelho, sem que se possa distinguir o pescoço da cabeça. Supomos que estejam a cima dos ombros. É uma forma intriguante de representar o corpo humano, que provavelmente evoluiu para uma nova forma:

 

 

Agora, a cabeça aparece de forma mais clara, como se fosse muito cabeludo. Todas estas pinturas aparecem isoladas, ou em série umas ao lado das outras. E a etnoarqueologia pode oferecer um início de resposta. Em numerosas festas de diversos povos indígenas, podemos ver grandes personagens mascarados dançar no centro da aldéia:

* Kokrit, nos Krahô ;
* Hátori, nos Umutina ;
* Apapaatai, nos Wauja, como nesta foto:

 

 

Como será que isso pode nos ajudar a entender o conjunto da Toca do Pepino? Primeiro, a tipologia das pinturas nos indíca que esse é o segundo mais numeroso tipo de figuras. Tudo o que pode ajudar a entender a sua presença nas rochas se torna então precioso. Naturalmente, mesmo na hipotese em que é bem uma representação de figura mascarada, não é possível concluir que povos Krahô, Wauja ou Umutina vieram pintar na Chapada Diamantina.

A identificação de possíveis máscaras oferece novas informações sobre as pinturas, que passariam a serem representadas com adornos – um detalhe que podemos até encontrar em outra representação do mesmo tipo, apesar de levemente diferente:

 

 

Aqui, a presença de um vestido ou adorno é muito mais evidente, mesmo se a orientação do corpo mudou – de frente, passamos de perfil.

A identificação etnica não funciona aqui – Wauja e Umutina, entre outros, vivem no coração da Amazônia, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. A identificação ritual também não – não houve Festa de Kokrit na Toca do Pepino. Mas podemos contudo propôr que se trate aqui de uma forma de representar uma máscara. É uma hipotese, de qualquer modo, que será necessário verificar em todos os sítios.

Caderno 22/05/2009

Ventura

Os sítios são chamados Toca do Pepino e Toca da Figura. Ambos apareceram em baixo da linha rochosa que domina o vale. Dos dois lados do rio, as margens se elevam numa centena de metros até chegar nos primeiros afloramentos, as serras cor de rosa típicas dos arenitos. Com a erosão, alguns estratos desabaram, formando abrigos naturais que podem alcançar quarenta ou cinqüenta metros quadrados cada.

Hoje, mesmo com a passagem dos garimpeiros, as paredes ainda estão cheias de pinturas. Vermelhas, amarelas e brancas, as vezes apagadas ou danificadas. Foram pintadas em uma época remota, sem que possamos determinar exatamente a sua idade. As técnicas clássicas de datação, o Carbono 14 e a termoluminação, não funcionam. As técnicas experimentais de arqueomagnetismo estão mal adaptadas para as pequenas quantidades de pigmentos minerais presentes nas pinturas, e a oxidação química do plasma ainda está em desenvolvimento. Eis toda a fraqueza da pré-história brasileira: as referências temporais estão extremamente pobres.

Os motivos, ao contrário, formam um testemunho impressionante sobre as sociedades que os fizeram: estilisticamente, estas pinturas relevam da Tradição Nordeste, identificada no sítio da Pedra Furada, do outro lado do Rio São Francisco. É a tradição a mais antiga, datada entre 10.000 e 6.000 antes do Presente. Os estilos gráficos posteriores; chamados Agreste e São Francisco (ou Geométrica), não alcançam o nível de detalhes e de fineza da Tradição Nordeste, e as figuras se tornam hieráticas, individuais, e cada vez mais abstratas.

4.000 anos constituem um período grande de mais, sobretudo quando as cenas pintadas representam tecnologias atribuídas, na Europa e na Ásia, à Revolução Neolítica (domesticação, agricultura, aldeias). Na frente destas fontes, a interpretação estilística não é mais suficiente.

Os resíduos de carvão vegetal descobertos nos dois sítios permitirão de obter uma estimativa da ocupação humana. Ainda será preciso decidir se as pinturas estão associadas, e de todos os painéis, quais delas. É um trabalho de formiga, sem dispor de um meio seguro de medir a sua profundidade.