Heterarquia

A complexidade pode ser definida como medida relativa do número de partes existindo dentro de um sistema e do número de relações internas entre estas partes (SASSAMAN 2004: 231). Enquanto conceito, é, portanto, intimamente relacionada com as abordagens sistêmicas, desenvolvidas a partir dos anos 60: « Podemos defender a ideia que a perspectiva sistêmica – delinear subsistemas, especificar as suas relações hierárquicas e horizontais, e identificar interações matéria-energia entre os subsistemas e entre o sistema e o ambiente – constitui literalmente o núcleo do processualismo » (O’BRIEN, LYMAN & SCHIFFER 2005: 75).

Duas formas de intensificação são identificadas nesta ideia: a primeira, vertical, é geralmente associada à complexidade. Trata-se dos níveis de hierarquização interna numa determinada sociedade, ou entre diversas sociedades. O surgimento de classes, castas ou linhagens cujo estatuto diferenciado é transmitido para as gerações seguintes. A segunda forma, menos conhecida, corresponde à intensificação horizontal – as interações entre grupos distintos. Estas duas dimensões da complexidade não são necessariamente presentes ao mesmo tempo numa única sociedade, e há exemplos de hierarquização interna em situação de relativo isolamento, tanto quanto ocorrência de interações entre grupos considerados igualitários.

Voltando às origens…

O tema da complexidade em arqueologia tem suas origens na corrente evolucionista e, sobretudo, na fase neo-evolucionista que foi desenvolvida na década de 50-60. Neste momento, a busca por padrões generalizantes levou diversos autores a definir uma escala de desenvolvimento cultural para as populações humanas. Em 1962, Elman Service publicou um esquema linear para a evolução das formas primitivas de organização social, baseada em quatro estados (SERVICE 1962):

O trabalho classificatório de Service deve ser considerado junto com os diversos outros esforços de racionalização da pesquisa arqueológica. No mesmo período, Betty J. Meggers relacionou os estágios de desenvolvimento cultural com o meio ambiente, tipificando quatro categorias de vegetação pelo seu potencial agrícola (MEGGERS 1954). A definição de grandes categorias permite, entre outras aplicações, elaborar formulas matemáticas destinadas a medir a articulação dos diversos componentes dos vestígios arqueológicos de forma científica (ver, por exemplo, WILMSEN 1973).

Embora seja possível identificar arqueologicamente cada uma das etapas definidas por Service, e se as categorias correspondem geralmente à evolução das sociedades clássicas, a definição de um quadro deste tipo levanta duas perguntas principais:

  • Não há evidência de uma evolução cultural linear, válida para todas as sociedades. Este argumento já estava presente nas críticas de evolucionismo (BOAS 1920).
  • Os diversos elementos compondo cada tipo não evoluem sempre com a mesma velocidade, e algumas sociedades podem compor o seu perfil a partir de vários elementos esparsos.

No Brasil, estas classificações foram introduzidas de cima para baixo. Nos anos 60, a maior parte do território foi definido como uma área com pouco potencial agrícola, vinculando-as imediatamente a um estado de organização social limitado ao nível da tribo. Os estudos arqueológicos foram, desse modo, dirigidos principalmente pelos diversos elementos que correspondiam às duas categorias de bandos, geralmente associados às populações de caçadores-coletores, e tribos, para as populações horticultoras ainda presente na época do contato com os europeus (herança desta época, alguns artigos da imprensa ainda veiculam estes modelos lineares obsoletos).

O desenvolvimento das pesquisas em todas as regiões do país permitem escapar, pouco a pouco, destas categorias rígidas e propor estudos sobre aspectos que, pelo fato de não corresponder com elas, eram simplesmente descartados. Estas novas abordagens permitem, ainda, questionar duplas de conceitos como estrutura social igualitária ou hierarquizada, modo de subsistência generalizado ou especializado, e as suas respectivas utilizações.

Cristiana Barreto apresenta três exemplos de sociedades pré-históricas que foram inicialmente classificadas em determinadas categorias e que, hoje, apresentam indícios de um desenvolvimento cultural diferente: os sambaquis do Sudeste, as aldeias circulares da região Central, e as ocupações do Rio Negro como o sítio Hatahara. A autora conclui que os modelos clássicos de ocupação do território brasileiro não são adequados para enquadrar os dados recentes da pesquisas arqueológicas. Entre outras implicações, ela destaca que existiram sociedades com certo nível de complexidade em áreas com potencial agrícola ainda menor do que as margens de rios na Amazônia. Insiste também no fato que as estruturas hierárquicas observadas na etnografia podem refletir padrões de diferenciação social e de inequalidade que tinham outra natureza no passado (BARRETO 2005).

A proposta de um esquema linear para a classificação dos vestígios arqueológicos esteve presente também nos estudos em arte rupestre desde o início do século XX. As primeiras classificações das gravuras e das pinturas encontradas em cavernas europeias foram todas elaboradas a partir de uma relação rígida entre estilo e cronologia: uma forma de representação correspondendo a uma determinada época.

O Abbé Henri Breuil propôs uma tipologia das representações rupestres do Paleolítico em dois grandes cíclos, aurignaciano e magdalenense, que se sucederam no tempo, e cujos elementos constitutivos eram mutualmente exclusivos (GROENEN 1992: 78-79). Com o desenvolvimento do método de datação por carbono 14, após a Segunda Guerra Mundial, foi possível confrontar este modelo com dados obtidos diretamente das pinturas. Breuil contestou vigorosamente os resultados da datação de diversos painéis em Lascaux, na França, porque desestabilizavam sua classificação (BREUIL 1954). Apesar de conceber diversos ciclos e, portanto, evoluções distintas para cada um deles, não considerou como válida a hipótese de ocorrências não lineares no seu esquema.

O mesmo fato ocorreria cinquenta anos mais tarde, com o desenvolvimento da técnica de datação por AMS e os resultados obtidos em Chauvet, também na França. Além de recuar a antiguidade das primeiras representações rupestres, Chauvet constitui um exemplo de desenvolvimento não-linear: uma forma mais complexa de representação gráfica antecedendo formas consideradas menos desenvolvidas (VALLADAS & al. 2005 ).

As dificuldades em classificar um material foi bem sintetizada por André Leroi-Gourhan, apesar dele ter elaborado também uma cronologia linear baseada em quatro estilos, já na segunda metade do século XX: « O objetivo que parece fundamental para o estudo da multidão das obras é de determinar a sua posição no tempo e no espaço. No entanto, tais noções são, de certa maneira, exteriores à própria obra: ao contrário dos objetos da cultura material como as ferramentas e as máquinas, cujo poder não paro u de crescer ao longo do tempo, as figuras evoluem mais em uma orbita circular do que em uma trajetória. O fato de que um pedaço de carvão ou algumas gramas permitam desde sempre realizar figuras, coloca a arte figurativa praticamente fora do campo cronológico, ele dá chances iguais ao Magdalenense de -10.000, ao Saharense de -6.000 e ao europeu do século XX » (LEROI-GOURHAN 1987: 294).

Heterarquia: primeira aproximação

Estes diversos exemplos mostram que, da mesma forma que a arte rupestre paleolítica pode ter passado por diversas etapas ou ciclos paralelos, o desenvolvimento das populações pré-históricas no Brasil não seguiu uma padronização linear, e as formas consideradas mais simples pelos estudos etnográficos podem mascarar experiências complexas anteriores.

Desde os anos 70, a complexidade invadiu o campo da pesquisa sobre as populações de caçadores-coletores. Inicialmente abordados de forma indiscriminada, a partir de critérios como relações igualitárias e flexíveis, diversos autores reconhecem hoje formas de diferenciação social inerentes à todas as sociedades humanas (PRENTISS & KUIJT 2004: viii).

Dois fatores explicam essa mudança: por um lado, a pesquisa arqueológica permitiu novas abordagens sobre as origens das populações de caçadores-coletores até então consideradas como excepcionais, como também sobre populações pré-históricas que não deixaram registros etnográficos. Por outro lado, as populações modernas de caçadores-coletores foram inseridas historicamente e perderam o seu estatuto de sobreviventes inviolados das sociedades primitivas (SASSAMAN 2004: 228-229).

O conceito de heterarquia foi proposto por Crumley, inspirada por novas pesquisas sobre caós e desenvolvimento de sistemas auto-organizados, que o definiu como « as relações entre elementos quando não são classificadas [unranked] ou quando possuem o potencial para serem organizados de várias maneiras diferentes. […] A importância relativa das bases de poder de comunidades ou indivíduos muda em resposta ao contexto da demanda e dos vários (e regularmente conflituosos) valores que resultam da reorganização contínua das prioridades » (CRUMLEY 1995: 3).

Sassaman destaca a utilidade deste complexo para o estudo da mudança social, uma vez que as sociedades não seguem um desenvolvimento padrão que vai de simples para complexa, e podem seguir vias alternativas ou entrar em brutal colapso, dependendo dos contextos. Consequentemente, haveria o risco de considerar um único grupo como simples numa parte do ano, e complexo numa outra (SASSAMAN 2004: 232-233).

Embora haja um certo consenso para reconhecer a inequalidade institucionalizada como atributo fundamental das sociedades complexas, ainda há pouca definição das suas formas que essa inequalidade deve assumir: indivíduos, grupos ou indivíduos de um grupo. Há dúvida também na questão da escala, pois um grupo considerado como simples pode entrar numa relação institucionalizada com outro e formar uma entidade mais complexa.

A questão fundamental em relação à complexidade reside na sua identificação nos vestígios arqueológicos. Embora a institucionalização das diferenças e da inequalidade constitui um elemento preponderante, a sua identificação não é fácil. Fitzhugh define os caçadores-coletores complexos como « grupos sociais principalmente organizados em um modo de produção forrageador, com inequalidade institucionalizada (hierarquia ou estratificação) e uma estrutura organizacional integrando múltiplas unidades familiares em uma formação política mais larga » (FITZHUGH 2003: 3).

Um elemento fundamental para o estudo desta questão concerne, portanto, a possibilidade de uma identificação de unidades familiares no registro arqueológico. Em seguido, é necessário identificar o grau e a forma das interações que existem entre elas, e avaliar se elas são baseadas numa relação de igualidade ou não. Em outras palavras, o tema da complexidade é limitado pelo reconhecimento, nos vestígios, de identidades suficientemente definidas. O estudo das relações que existem entre estas identidades deve guiar uma segunda etapa destinada a identificar se há, ou não, inequalidade.

Para não concluir

Com o reconhecimento de características fora do padrão em diversos casos observados, entre outros no Brasil, o horizonte pré-histórico pode ser avaliado com uma perspectiva diferente, não limitada pelas classificações em quatro tipos culturais principais. Apesar de Elman Service ter notado a importância de coalizões, federações, ligas ou uniões e comunidades, ele nunca incluiu este aspecto no seu modelo (CRUMLEY 2005: 41). O conceito de heterarquia permite avaliar o grau de intensificação horizontal em uma determinada sociedade, seja ela composta de grupos caçadores-coletores ou de cidades francas ou de províncias unidas. A pesquisa sobre as sociedades nômadas, neste aspecto, revela toda a ambiguidade de uma tipologia na qual a agricultura tem um papel fundamental para o surgimento de estágios avançados (VASJUTIN 2005: 51).


Nodism Sketches, by Dan Zen

Referências
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WILMSEN, E. N. Interaction, Space Behavior, and the Organization of Hunting Bands. In: Journal of Archaeological Research, 29, 1, 1973: 1-31.

Vida útil dos modelos arqueológicos

O Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica foi realizado entre 1965 e 1970, com o objetivo de ampliar rapidamente o conhecimento sobre o povoamento e os mecanismos de difusão nas culturas materiais no Brasil. Auto-apresentado como a primeira experiência arqueológica de cunho científico, o programa definiu um método rigoroso, utilizado na condução das prospecções e das escavações em todo o território. A articulação deste método em diversos lugares, bem como a publicação, regular e sistematizada, dos resultados, constituíram elementos inovadores para a arqueologia brasileira.

O modelo teórico que foi introduzido na mesma ocasião, contudo, mostra que todo método passa pelo filtro da interpretação. Betty J. Meggers, uma das principais idealizadoras do Programa, recebeu a orientação de Julian H. Steward para a sua tese de doutorado na Universidade de Columbia (Kerns 2009: 370, nota 28). Antropólogo americano, ele definiu uma teoria da mudança cultura, batizada ecologia cultural, na qual o meio ambiente tem um papel preponderante.

A influência do meio ambiente nos trabalhos de Betty Meggers aparece de forma evidente na sua produção bibliográfica. Em 1954, publicou Environmental Limitations on the Development of Culture, no qual ela definiu quatro tipos de ambientes, relacionados com o potencial agrícola: “An analysis of the cultures of South America in areal terms and those of Europe in historical terms suggests that definite limitations and possibilities for cultural development are associated with each of the four types of environment. These were expressed in the form of a law, the level to which a culture can develop is dependent upon the agricultural potentiality of the environment it occupies.” (Meggers 1954: 822)

Em outro texto, publicado mais de 20 anos depois, ela analisou a diversificação étnica e linguística da região amazônica (que se estendeu, neste caso, até o litoral atlântico) a partir dos ciclos de seca: “The occurrence of several episodes of reduction and coalescence of the lowland tropical forest during and since the Pleistocene provides a new and exciting context for analyzing prehistoric cultural development” (Meggers 1977: 300). Interesse notar que, segundo a autora, as secas tenham sido capazes de levar a uma maior complexidade lingüística, sem a menor contrapartida cultural, social, econômica… Os grupos amazônicos apenas passaram a falar outras línguas.

A partir do momento em que as terras da região amazônica, e o Brasil de forma geral, foram classificadas no Tipo 2, com pouco potencial agrícola, o próprio modelo fechou a porta para todas as formas complexas de sociedade, justificando-se ainda em fontes escritas da época colonial e em analogias com os grupos indígenas modernos.

Houve, então, uma interessante dicotomia, com a aplicação de um método rigorosamente definido, e um modelo previamente fechado para boa parte das informações coletáveis no subsolo brasileiro. Em termos de prática científica, o Programa não teve nenhuma preocupação em levantar hipóteses alternativas, ou em considerar possíveis exceções ao modelo escolhido. A reposta fornecida de antemão nunca foi discutida – um tipo de argumentação sem espaço para a refutação, portanto, não científico (Popper 2005: 57-73). Pior, as pesquisas voltadas para o ambiente pré-histórico, que deveriam ter sido as primeiras realizadas, de maneira a fundamentar o modelo, apareceram somente nas últimas décadas. As análises do clima e da vegetação pleistocênica e holocênica na região Nordeste apontam para uma maior diversidade de ambientes (De Oliveira & al. 1999).

Entre 1965 e 1970, o Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica aplicou ao mesmo tempo um modelo teórico fechado e uma metodologia rígida, e a sua trajetória pode ser comparada com a evolução da pesquisa em arte rupestre no Nordeste, mais particularmente a partir dos anos 1970, quando começou a Missão Franco-Brasileira no Piauí.

Em frente à quantidade dos sítios encontrados, a pesquisa definiu rapidamente diversas macro-categorias de trabalho, destinadas a permitir uma primeira aproximação desta realidade arqueológica. Diferente da classificação segundo o potencial agrícola, contudo, houve o cuidado de estabelecer imediatamente o seu caráter preliminar. A abordagem geral seguiu, de fato, uma perspectiva oposta: indo não do modelo teórico para a prática de campo, e sim da prática de campo (prospecção, registro) para o desenvolvimento de um modelo.

Curiosamente, o conceito de tradição foi primeiro formulado por um dos integrantes do Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica. Valentin Calderón foi o responsável pela área do Estado da Bahia, e formulou as suas primeiras observações sobre a arte rupestre quando realizou prospecções na região do Rio São Francisco: “o conjunto de características que se refletem em diferentes sítios associados de maneira similar, atribuindo cada uma delas ao complexo cultural de grupos étnicos diferentes, que as transmitiam e difundiam, gradualmente modificadas através do tempo e do espaço” (citado em Martin 2008: 243). Em seguida, Niède Guidon e Anne-Marie Pessis o reaproveitaram, na Serra da Capivara, insistindo no seu caráter de classe inicial.

Os principais modelos relativos à arte rupestre concernem a cronologia do Paleolítico europeu. Foram desenvolvidos a partir do final do século 19 e, sobretudo, depois da Segunda Guerra Mundial. Com as pesquisas de André Leroi-Gourhan, foram definidos diversos estilos de representações figurativas – mais tarde questionados com métodos físicos e estatísticos (ver LORBLANCHET & BAHN 1992; APÉLLANIZ & CALVO GÓMEZ 1999). Pouco a pouco, os signos geométricos se tornaram alvo de estudos acadêmicos. Porém, salvo os procedimentos para a classificação do material, não era possível importar os resultados obtidos neste continente para a realidade encontrada no Nordeste.

Até a datação do painel rupestre localizado abaixo de uma fogueira com carvão no Baixão do Perna 1, na Serra da Capivara, já no final do século 20, tampouco havia possibilidade de relacionar o material com os modelos de povoamento do Brasil – ainda fortemente dependentes do Programa. Neste contexto, sem modelo utilizável, foi praticamente necessário partir de zero.

A definição dos primeiros instrumentos conceituais possibilitou a extensão de uma pesquisa mais uniformizada. Evitou assim análises centradas em cada sítio, independentemente dos outros, e que levariam a interpretações abusivas. Não evitou, porém, que o uso dos conceitos, na prática cotidiana da pesquisa, levasse a certos desvios: “Preocupa-nos a banalização nas classificações, as quais iniciadas como preliminares ou provisórias, passaram a ser definitivas à força de serem repetidas. Chega-se, em casos extremos, a um maniqueísmo classificatório reducionista: o que não pertence à tradição Nordeste passa a ser representativo da tradição Agreste.” (Martin & Guidon 2010: 15).

Além da prática de campo, o procedimento utilizado durante o Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica foi de tipo dedutivo – na linha da Nova Arqueologia, muito influente nesta época. Utilizou-se um modelo teórico, cujas leis eram tidas como universais. Em seguido, com um método de campo bem definido, foi aplicado em todo o território. A influência deste método ainda é importante hoje, como mostra um recente estudo da ocupação humana na região ocidental da bacia do Rio Amazonas (McMICHAEL & al. 2012): 55 sítios em 3.000.000 de quilômetros quadrados, somando 247 sondagens de 120 cm de profundidade, ou um núcleo bastante superficial para cada 10.000 km².

Entretanto, diversos problemas surgiram, à medida que elementos apareciam fora das definições do modelo: construção de estruturas sólidas na Amazônia (PÄRNISSEN & al. 2009), modificação dos padrões de expansão tupi (NOELLI 2008), análise da composição das terras pretas (PAZINATO 2007) e, sobretudo, mais datações comprovando uma maior antiguidade da presença do homem nas Américas (NEVES & al. 2012). Por causa da escolha de um método dedutivo e da rigidez das suas classificações, é o modelo inteiro que se torna questionável, e não apenas as suas partes constitutivas (BARRETO 2005).

Para o estudo da arte rupestre no Nordeste, não foi aplicado um modelo deste tipo, apesar de vermos uma utilização muito rígida dos conceitos de tradição, subtradição e estilo. Ao contrário, um modelo, pouco a pouco mais preciso, está sendo construído a partir dos dados registrados em sítios da região inteira (MARTIN 2003; MARTIN & GUIDON 2010). A vantagem desta abordagem, indutiva ou construtivista, está na sua capacidade em incorporar novos dados de maneira muito mais ágil. Datações devem nutrir o seu desenvolvimento, além da identificação de novos mecanismos de interação, e do apoio da multidisciplinaridade. Este tipo de modelo tem uma vida útil muito mais elevada.

Bibliografia
APÉLLANIZ: Juan María. CALVO GÓMEZ: Félix. La forma del arte paleolítico y la estadística: Análisis de la forma del arte figurativo paleolítico y su tratamiento estadístico. Bilbao: Universidad de Deusto: 1999.
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POPPER: Karl Raymund. The Logic of Scientific Discovery. Londres: Routledge: 2005.

Curvas e Esferas

O problema do número de critérios envolvidos na construção das redes não se torna mais tão importante, a partir do momento em que aparece mais como um problema de resolução (como no caso de uma máquina mais performante) do que de identificação mesmo.

As possibilidades para outros objetos arqueológicos dependem do tipo de material. Sem a identificação de uma determinada peça à observar, não é possível esperar resultados, da mesma forma que a simples rede não dá resultados. Seria necessário, então, dispor de um objeto que se encontra nas margens de outros conjuntos maiores. Peças intermediárias, de fronteira, de contato, de interação. Atratores estranhos.

Vamos imaginar um tipo de esfera de interação com trocas materiais. Dois sítios são escavados em uma região e, no meio dos diversos artefatos, são encontrados objetos X. Aqui uma rede seria construída, não em cima de critérios morfológicos, e sim a partir de critérios baseados nas escavações: presença de objetos da mesma classe em determinadas unidades ou estruturas… Parece complicado a primeira vista, mas precisaria definir critérios que permitam montar uma rede bimodal.

Topologia da rede: articulação espacial da rede.

Para as interações, a posição das figuras estudadas nas curvas deve ser entendida no contexto da topologia própria a cada sítio/rede. É da combinação topologia/curva A x topologia/curva B que podemos tirar observações.

A aleatoriedade em arte rupestre (resenha)

No livro La forma del arte paleolítico y la estadística, Juan María Apellániz e Félix Calvo Gómez retomam duas categorias formuladas por André Leroi-Gourhan para o estudo da arte pré-histórica da região da Cantábria, e propõem uma análise baseada no tratamento estatístico dos contornos gráficos para avaliar a sua exatidão, as suas eventuais falhas ou erros.

Apéllaniz e Calvo Gómez são ambos professores da Universidade de Deusto, no País Basco, respectivamente na área de arqueologia e de estatísticas. A aplicação deste tipo de tratamento matemático de dados oriundos da arte paleolítica recebeu um grande impulso a partir do início da década de 1990, embora o próprio Leroi-Gourhan já tenha feito uso de cálculos diversos. No final do século XX, diversos críticos apelaram para uma mudança nas formas de estudar os grafismos pré-históricos com maior rigor científico, um movimento cunhado “era pós-estilística” por Lorblanchet e Bednarik em 1993. Tal como estes, os autores defendem a ideia de que os estilos são construções modernas, sem correspondência com a realidade do passado.

De forma geral, passada a historiografia das diversas tentativas de classificar o registro rupestre europeu, o livro avalia estatisticamente duas das grandes categorias definidas por Leroi-Gourhan, o Estilo III e o Estilo IV, na região franco-cantabriana. Com um corpus reunindo 124 figuras de cavalos, sendo 70 pintadas e 54 gravadas, Apéllaniz e Calvo Gómez analisaram de forma precisa as variações que aparecem no contorno geral dos animais e nas suas diferentes partes. Para isso, dividiram o corpo de um cavalo em 22 partes, da ponta da espádua até as nádegas, e avaliaram a existência de padrões segundo as classificações tradicionais.

Com análise fatorial de correspondência, os autores identificaram o caráter aleatório das escolhas gráficas: não puderam encontrar padrões, nem estilísticos, tais como os Estilos III e IV de Leroi-Gourhan, nem geográficos.

A aleatoriedade no registro rupestre é um tema que provoca um profundo debate. Ela põe em xeque mais de um século de pesquisa sobre a arte rupestre, baseada justamente na evolução dos grafismos segundo padrões bem definidos: «A estratigrafia das pinturas rupestres em algumas zonas mostra que aquelas com maior grau de complexidade são posteriores àquelas com menor grau de complexidade. Mas tal estratigrafia está presente apenas em um número reduzido de casos, e em pouco lugares. Deste modo, não há possibilidade de estabelecer a sequência de uma mudança repetida sistematicamente em todas as regiões pelas quais se estende esta arte » (p. 337).

Esta impossibilidade chama necessariamente novas perguntas, novas linhas de pesquisa e, sobretudo, a necessidade de recorrer a diversos instrumentos de pesquisa antes de poder chegar à conclusões em arte rupestre. A ideia de uma evolução baseada no caráter naturalístico ou na complexidade da representação não é mais sustentável. A partir do momento em que fica demonstrado que a relação com o modelo real não é o motivo da forma da representação, é preciso reformular a maneira com a qual entendemos este motivo. Infelizmente, La forma del arte paleolítico y la estadística não chega a oferecer pistas ou hipóteses.

Apéllaniz e Calvo Gómez apresentam uma demonstração clara de como é possível tratar o registro rupestre com o rigor científico imposto pela “era pós-estilística”. Graças à excelente apresentação introdutória sobre a periodização da arte rupestre e as suas principais críticas, o livro é também uma obra interessante para o estudantes de arqueologia e os curiosos em geral.

APÉLLANIZ, J. M. & CALVO GÓMEZ, F., La forma del arte paleolítico y la estadística. Bilbao: Universidad de Deusto, 1999. ISBN 84-7485-596-9.

Arqueologia Resiliente

Durante o mês de junho de 2010, cinco rios saíram do seus leitos e provocaram destruições em mais de 30 municípios de Alagoas e de Pernambuco. União dos Palmares foi uma das cidades atingidas, com centenas de casas e a principal ponte demolidas pela força da água.

Introduzimos aqui o conceito de resiliência, que define, originalmente, a propriedade de certos materiais, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse sem ocorrer ruptura (wikipedia). Geralmente, é utilizado nos campos da física e da engenharia, mas passou também a ocupar um papel importante em psicologia ou em ecologia, considerando então indivíduos ou sistemas vivos.

O que isso tudo tem a ver com arqueologia?

A ideia de uma arqueologia resiliente está relacionada às atividades de conservação ou de pesquisa sobre o patrimônio em áreas sinistradas, nas quais uma modificação brutal – seja ela natural ou humana – provocou uma alteração da estrutura social. Neste sentido, a arqueologia (e outras atividades ligadas ao patrimônio, como o turismo cultural) ocupa um papel importante na rearticulação das comunidades afetadas (ver Pedro Paulo Funari, Os desafios da destruição e Conservação do Património Cultural no Brasil. In: Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 41, 2001, 23-32).

As alterações ocorridas em tais áreas podem ter provocado danos estruturais ao patrimônio, com a destruição de prédios históricos ou a lixiviação de sítios arqueológicos, por exemplo, nas beiras dos rios ou no pé de morros onde houve deslizamentos. Porém, ao trabalhar na relação que existe entre a população atual e os vestígios do passado, a arqueologia pode aumentar, em momentos de crise, a capacidade de resiliência da própria população (outros exemplos em Silvia H. Zanirato, Experiências de Prevenção de Riscos ao Património Cultural da Humanidade. In: Ambiente e Sociedade, 13, 1, 2010).

União dos Palmares está localizada em uma região com grande densidade arqueológica: a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares e outros sítios indígenas e de época colonial, e na região se contam também dezenas de engenhos coloniais. Na cidade, que teve a sua morfologia totalmente alterada com a destruição das casas e a implantação de novos bairros longe do rio, funciona o Centro Arqueológico Palmarino com diversos objetos encontrados durante as escavações.

A existência de um museu local destinado à apresentar o material arqueológico é uma fato raro em todo o Brasil, que ocorreu quase 30 anos após o início das primeiras escavações, em 1992. Isso se deve principalmente ao interesse dos próprios moradores – os poderes públicos, mas também os muitos alunos das escolas municipais que o visitam desde a sua abertura em fevereiro de 2011 – e à articulação com a Universidade Federal de Alagoas, seus estudantes e professores (ver os artigos de Scott J. Allen, As vozes do Passado e do Presente. In: Clio Arqueológica 20, 1, 2006, 81-101).

Enquanto pesquisa, a arqueologia tem o papel fundamental de oferecer respostas às perguntas sobre o passado que se fazem a população de forma geral. Na sua função resiliente, esta abordagem é amplificada pelos traumatismos provocados pelos sinistros, que tornam necessárias atividades destinadas à religar as populações com a situação que eles conheciam antes da crise.

Esta função pode também ser aplicada em outras áreas, como favelas, zonas pós-conflitos, ou territórios atingidos por catástrofes naturais de grande amplitude (ver J. Hunter & B. Simpson, Preparing the Ground: Archaeology in a War Zone. In: R. Ferllini (org), Forensic Archaeology and Human Rights Violations, Springfield, 2007, 266-292).

Algumas comunidades resilientes ao redor do mundo:

learningforsustainability.net

entransition.net

brasilresiliente

proyectosderesilienciacomunitaria

Patrimônio e (alter)globalismo

« Protágoras era o primeiro a manter que havia dois lados para cada questão, um oposto ao outro.»
Diógenes Laércio, Vida dos Filósofos Ilustres, IX, 51.

No capítulo intitulado “Arqueologia e Globalismo”, Ian Hodder defende uma perspectiva geopolítica centralizada em um contexto próprio ao hemisfério norte : « Se defende regularmente, hoje, em diversos setores da vida, que alguma coisa radicalmente nova está acontecendo no mundo, ou pelo menos, no mundo desenvolvido. Este discurso do “novo” é parcialmente alimentado pelos debates e retrospectivas do fim do milênio » (Hodder 1999, 148).

Esta posição segue a lógica do seu pensamento pós-processualista ou interpretativo, no qual pouco servem as generalizações universais, a partir do momento em que estão sempre fundamentadas – consciente ou inconscientemente – em observações locais e nas escolhas individuais da pessoa que as criam. Cita brevemente a situação dos continentes africano e asiático, sem se aprofundar nela (152).

Enquanto sexta potência econômico do planeta, cuja atenção é principalmente voltada para os centros europeus e americanos, poderia parecer natural incluir o Brasil na abordagem de Hodder. Afinal, os processos descritos envolvem descobertas tecnológicas que beneficiam todos os países, e a rápida difusão no país de todas as novidades que aparecem no mercado mundial deveria servir de indicador evidente da sua inclusão no “mundo desenvolvido”. Inversamente, certas produções musicais brasileiras são capazes, em pouco tempo, de atingir todos os mercados do mundo, ilustrando bem o quanto esta conectividade brasileira pode funcionar nos dois sentidos.

Contudo, há uma diferença fundamental que provoca uma fratura entre a Europa ou os Estados Unidos e o Brasil: as mudanças apresentadas estão ocorrendo em contextos sociais radicalmente diferentes. No contexto geopolítico definido por Hodder, as mudanças ocorreram a partir de uma situação prévia na qual já se viam, de alguma forma, as premissas das novidades da pós-modernidade. A sociedade europeia ou norte-americana da era industrial de modelo Ford (pré-1970) apresentava diversos indicadores essenciais para entender a difusão das novas características: a massificação do consumo, as lutas das minorias e o desenvolvimento exponencial de corporações, desde a Segunda Guerra Mundial, particularmente no setor das mídias (rádio, televisão e telefonia). Na economia, a passagem para o modelo Toyota de produção industrial, ou toyotismo, constitui uma etapa marcante para a elaboração de grandes redes de produção que possam responder quase instantaneamente à demanda (ver Dohse, Jürgens & Malsch 2011).

No Brasil, e nos outros países da América Latina, localizados na semiperiferia do “mundo desenvolvido”, o globalismo teve um impacto mais violento. Descrito no livro A Doutrina de Choque, da autor canadense Naomi Klein, a sua aplicação desde a década de 1980 (sob o nome de Consenso de Washington) é marcada por crises econômicas profundas nas duas últimas décadas: o Plano Real foi iniciado em 1994 para conter uma inflação de mais de 40% ao mês, enquanto o México enfrentava também a desvalorização do peso. Em 2001-2002, uma nova onda de choque atingiu a Argentina, o Uruguai e o Brasil. Desta maneira, a lenta restauração de regimes democráticos na América do Sul coincidiu com a entrada da região na economia globalizada.

Importa, deste modo, entender de que forma os temas apresentados por Hodder estão se articulando na realidade brasileira.

A SOCIEDADE GLOBAL

As dificuldades enfrentadas diariamente na área da educação, seja de primeiro, segundo ou terceiro grau, têm repercussões em todo o planeta. Ao contrário do que se pensa, contudo, elas não têm uma única origem nas escolas, colégios e universidades brasileiras, e sim na própria sociedade: « O que é um problema da cultura da sociedade se torna um problema de aprendizagem escolar. Não que o problema da aprendizagem não exista, mas ele não é reconhecido em todas as suas dimensões.

Pensemos, por exemplo, no avançado desenvolvimento da ciência e na necessidade de uma educação tecnológica que responda às exigências de uma leitura atualizada do mundo. Ou pensemos na exaltação do mercado não apenas como o padrão das relações econômicas, mas de todas as relações humanas pela subsunção de tudo ao valor mercadoria. Pensemos na destruição do planeta pelo saqueio inconsequente das formas de energia não-renováveis (o carvão, o gás, o petróleo), na fome destruidora de dois terços da humanidade e nos obstáculos para desenvolver um comportamento solidário entre os povos » (Frigotto e Ciavatta 2003).

O papel da escola enquanto centro da aprendizagem passa por uma mutação que a obriga a se abrir para formas de ensino capazes de dar conta do estado atual da sociedade global: deve ser apta para orientar crianças e jovens sobre a recuperação ambiental da lagoa vizinha tanto quanto sobre a recente redução da taxa de juros pelo Banco Central no contexto macroeconômico da crise mundial de 2008. O indivíduo enfrenta a dupla fragmentação::homogeneização das suas referências sociais e culturais, que não são mais suficientes para explicar os acontecimentos com os quais as pessoas são confrontados diariamente. Parafraseando Hodder, a própria educação passa por uma tripla crise (179):

– Os indivíduos não herdam mais das suas culturas, eles as escolhem;
– O ensino é vivo, e o “outro” pode responder em tempo real, seja no campo das ciências exatas, com novas descobertas, ou nas humanas, com novos sujeitos;
– A comercialização do ensino aumenta e traz novos debates sobre a função da educação enquanto provedora de mão de obra.

A escola, entendida como microcosmo da sociedade, perde muito do seu sentido. A educação, enquanto transmissão de valores, deve encontrar outros caminhos. Em relação ao passado também, os vetores tradicionais de referência – o livro, o professor, o acervo – são desvalorizados devida a existência real de alternativas neles não catalogadas. O ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena, por exemplo, foi introduzido apenas recentemente no currículo escolar, com a aprovação da Lei 11.645 de 10 de março de 2008.

FRAGMENTAÇÃO::HOMOGENEIZAÇÃO

O desenvolvimento das redes informáticas (149) e do audiovisual (150) constituem dois elementos que, segundo Hodder, devem ser considerados na busca por soluções dos problemas da educação no contexto da sociedade global.

Desde a data da publicação do livro, em 1999, o acesso às novas tecnologias da informação em todas as partes do planeta evoluiu de forma espetacular. No Brasil, não foi diferente: a era dos cibercafés – concentrando diversas máquinas para uma população maior – já parece ultrapassada, em favor do uso do computador diretamente em casa. Segundo os dados do IBGE, o número de lares possuindo um computador triplicou entre 2000 e 2010, passando de 10,6% à 38,3% (Folha, 26 de novembro de 2011, Triplica do número de casas com computadores, diz IBGE). Em média, qualquer Brasileiro tem pelo menos um vizinho com acesso pessoal à informática. Entre estes, destaca o Censo 2010, 80% possuem também acesso à internet. Em comparação, na França, perto de 70% das casas tinham acesso a um computador em 2010, e 65% da população uma conexão a internet. Quantitativamente, o Brasil aparece em uma posição similar à diversos países do Leste Europeu (INSEE, Deux ménages sur trois disposent d’internet chez eux).

Hodder destaca o uso das tecnologias da informação como uma solução que permita que abaixar o nível onde se encontram as informações, para mais perto do usuário: « o objetivo é fazer passar o nosso modelo da arqueologia da hierarquia para aquela prima metáfora da sociedade global que é a internet. A rede tem núcleos múltiplos e não um único centro. Permite que a informação flua horizontalmente e, ao mesmo tempo, seja agregada localmente nos pontos nodais » (180).

Da mesma maneira, o desenvolvimento do audiovisual e a entrada em todas as casas de aparelhos de televisão com canais abertos, e grandes redes de produção (Globo, Record, Abril, etc.) oferece a oportunidade de alcançar amplas porções da sociedade com conteúdos pedagógicos novadores. No entanto, enquanto artifício de massa, esta solução tem tendência a privilegiar a homogeneização das referências. A fragmentação, entendida como forma de contrapoder para os desvios de uma padronização extrema da sociedade, permanece amplamente apagada – embora a dinâmica entre os dois fenômenos deixasse ainda espaço para sub-homogeneizações e sub-fragmentações (Appadurai 2003, em particular pp. 31-41).

As redes informáticas (World Wide Web, Internet, etc.) aparecem regularmente como uma alternativa à cultura de massa, pelo fato de oferecer uma gama maior de referências que podem ser escolhidas, individualmente, por cada usuário. Em teoria, constituem uma solução ideal para os efeitos negativos da homogeneização. Contudo, diversos obstáculos continuam no caminho: a barreira da língua, sobretudo para pessoas cujo idioma nativo é globalmente pouco difundido, da tecnologia, em termos de adquisição do material e do seu domínio, e dos efeitos de massa internos à própria ferramenta.

No Brasil, o sucesso da rede social orkut ofereceu durante alguns anos um caso de escolha local (em termos mundiais) diferente da tendência global. O cenário hoje está mudando, em favor da homogeneização: « Desde que foi lançado e se popularizou, em 2004, nunca foi ameaçado aqui no Brasil. Sempre foi usado por cerca de 70% dos internautas, de todas as faixas etárias » (Estadão, 4 de setembro de 2011, Facebook ultrapassa Orkut em usuários no BR, diz revista; Ibope não confirma). Ambos com cerca de 30 milhões de usuários, Orkut e Facebook são outros indícios da forte difusão da Internet no Brasil.

SÃO GONÇALO DOS CAMPOS, BAHIA

O tema da homogeneização::fragmentação da cultura e do passado nas pequenas cidades do interior brasileiro oferece perspectivas interessantes para a discussão da perspectiva proposta por Hodder.

Enquanto núcleos urbanos em um país do tamanho do Brasil, recebem altas dosas de uma produção cultural externa. Os seus próprios produtores precisam sair para as capitais estaduais onde há, geralmente, mais recursos e instituições públicas ou privadas dispostas a financiar trabalhos deste tipo.

Fundada na primeira metade do século 17, São Gonçalo dos Campos é uma cidade do Recôncavo baiano localizada nos antigos campos de Cachoeira, principal porto de embarque no Rio Paraguaçu durante do período colonial. Foi beneficiada pelo cultivo do fumo, que produz nesta terra uma folha de boa qualidade ainda hoje destinada à fabricação de charutos de alto padrão. A partir do início do século 20, época em que o sucesso de tabacos de tipo Virgínia, a demanda pela produção local foi drasticamente reduzida, e sobrevivem hoje apenas duas empresas especializadas. Um novo ciclo produtivo foi iniciado na passagem para o século 21, com a instalação de diversos abatedouros de frango, mas o seu impacto em termos municipais ainda permanece obscuro (Folha, 26 de julho de 2011, Brasil Foods vai vender dez fábricas para atender Cade).

Restam deste primeiro período um centro histórico com diversas estruturas que datam dos séculos 17 a 19: mercado, igreja, capelas e diversos armazéns monumentais, bem como um grande número de casas e casarões. Existe, portanto, um patrimônio arquitetural importante, que se encontra hoje – como em tantos outros lugares – ameaçado de destruição. Os casos mais clássicos são o desabamento do prédio por falta de cuidados ou a sua reforma pura e simples em uma nova
estrutura moderna.

Neste contexto, articular a população, sobretudo escolar, com este patrimônio surge como uma oportunidade de criar um tipo de elo entre as sociedades global e local, que permita salvaguardar o acervo arquitetônico. O termo “glocal” foi adaptado do japonês dochakuka, que significa adaptar as técnicas agrícolas à situação local, e introduzido na sociologia por Roland Robertson nos anos 90, na sua definição da globalização como combinação de dois processos, macro-localização e micro-globalização (Robertson 1995).

A organização não-governamental Pé de Arte, Cultura e Educação foi fundada em 2006 em São Gonçalo dos Campos com este objetivo, entre outros. Desenvolve atividades de artes, teatro, música e alfabetização para uma centena de crianças, jovens e adultos, com a proposta de fomentar o reconhecimento e a valorização do patrimônio local, tanto arquitetônico quanto ambiental. A aproximação com o mundo da educação formal, das redes municipal e estadual de ensino, é fundamental para ampliar os efeitos da conscientização, e assegurar a sua perpetuação a longo prazo (por exemplo, Corbishley, Fordham, Walmsley & Ward 2008). Diversas iniciativas seguem este raciocínio:

– Capacitações gratuitas para os professores, nas áreas das artes, cultura e pedagogia
– sobretudo temas recentes, como história e cultura afro-brasileira, importante no contexto social da cidade;
– Apresentação dos espetáculos de teatro montados pelas crianças na associação para os alunos das escolas públicas e particulares do município;
– Abertura das salas de aulas em diversas escolas para a tradição oral, personificada por contadores de histórias chamados griôs, palavra adaptada do francês griot que designa um dos personagens centrais da tradição oral africana (Hale 1998).
– Realização e distribuição para todas as escolas de um documentário sobre a fundação da cidade, contada por um historiador local, Sr. Geraldo Pereira.

Considerando a situação na qual se encontra a educação, e o papel novo da escola em uma sociedade global, Pé de Arte, Cultura e Educação desenvolve também outras atividades fora do ambiente escolar. O objetivo geral destas ações consiste em criar o maior número possível de conexões entre o patrimônio e a sociedade local, e montar assim um tipo de “safety net”:

– Ação civil pública para impedir a reforma da Praça da Matriz, localizada no coração histórico da cidade e que previa a construção de pistas de skate, anfiteatro, e outras instalações que descaracterizariam o local.
– Formação de um grupo de condutores culturais na cidade, com roteiro turístico nos principais pontos de interesse histórico e arquitetônico da cidade.
– Elaboração de uma proposta de reforma da Lei Municipal de Patrimônio Histórico, prevendo a criação de uma Secretaria Municipal da Cultura e do Patrimônio, de um Conselho Municipal de Cultura e Patrimônio com participação de membros da sociedade civil organizada, e recursos financeiros para um Fundo Municipal.
– Registro e apoio para produção cultural local, em eventos como a Semana da Consciência Negra, a Festa de São Gonçalo do Amarante e a Festa da Boa Morte.

Os aspectos materiais e imateriais do patrimônio cultural são considerados como elementos que permitem a reconstituição de um fragmento cultural, uma plataforma homógena a partir da qual outras iniciativas posam ser construídas. As dificuldades enfrentadas são múltiplas, a exemplo dos obstáculos criados pelos poderes municipais, utilizando técnicas clássicas: difamação nas rádios, insultos ou ameaças pessoais, ataques deliberados contra o próprio patrimônio, arquivamento quase automático de qualquer pedido oficial, etc. Mas o principal ponto de enfraquecimento dos objetivos consiste na evidente demora destes processos. Trabalhar com microprodução cultural, sem maior possibilidade de retorno financeiro, ou fortalecer iniciativas desenvolvidas pela própria sociedade civil requer tempo e paciência: uma intervenção de choque pode até provocar o desaparecimento das manifestações.

O papel da informática neste trabalho e a presença da ONG em diversos pontos da Internet (site próprio, comunidades em redes sociais, boletins enviados por e-mail) não ocupa, contudo, um lugar preponderante. É fundamental em diversos aspectos – colocar computadores à disposição das crianças que nunca se aproximaram de um teclado ou apresentar as contas da associação de forma transparente e os resultados atingidos para os doadores – mas a sua ausência nunca impediria a realização dos projetos. Ampliam e divulgam tudo aquilo que é feito com as próprias mãos, ou nas ruas em contato com o patrimônio local.

CONCLUSÃO: ESTÁTICO E DINÂMICO

As dimensões nas quais a ONG Pé de Arte, Cultura e Educação trabalha, uma cidade de cerca de 30.000 habitantes, são obviamente reduzidas. Não há espaço para uma perspectiva positivista ou um modelo de ação que possa ser reproduzido da mesma forma em outros lugares. O conceito de espiral hermenêutica definido por Hodder se aplica, aqui também, perfeitamente (32-33). As primeiras ações foram, certamente, guiadas por preconceitos definidos arbitrariamente: o primeiro projeto, envolvendo teatro de bonecos, foi desenhado em 2005 na Bélgica. Contudo, os resultados obtidos em campo tiveram o papel crucial de reorientar as atividades, baseando-se também na realidade cotidiana da administração de uma associação no Brasil.

Apesar de cada projeto apresentar um perfil relativamente estático, no qual diversas atividades são desenvolvidas durante longo períodos, a atuação da associação de forma geral adota uma dinâmica que permite que ela se adapta de maneira contínua às novas realidades. Por exemplo, as primeiras gerações de crianças que participaram dos projetos em 2006 se tornaram hoje adolescentes, e novos projetos foram criados para os atender nesta fase da vida.

A relação entre o local e global segue este mesmo processo de equilíbrio gradual, a partir de um contexto amplamente desfavorável à sociedade são-gonçalense. Inicialmente, este balanço é marcado por um consumerismo às cegas e uma desvalorização de tudo o que não parece estar em concordância com a paisagem mundial tal como está percebida no imaginário coletivo e formado a partir de referências televisuais, musicais ou outras.

Para inserir-se nesta teia de relações, a arqueologia no hemisfério sul deve também adotar um papel de reaproximação entre local e global. Pois, diferentemente do contexto encontrado no “mundo desenvolvido”, o patrimônio no Brasil não é constituído. Está em fase de formulação: « o patrimônio arqueológico deverá proporcionar os fundamentos para a localização existencial de um indivíduo ou sociedade em um espaço e um tempo determinados, fisicamente identificáveis, o que quer dizer, em última instância, objetivar a sua condição histórica. Dessa forma, enquanto o material arqueológico se transforma em patrimônio, o indivíduo se investe da sua condição de cidadão » (Etchevarne & Pimentel 2011, 15).

Bibliografia
Appadural, A., Disjuncture and Difference in the Global Cultural Economy. In: Braziel, J. E. &
Mannur, A. (eds.), Theorizing Diaspora. Blackwell: Oxford, 2003, pp. 25-49.
Corbishley, M., Fordham, J., Walmsley, D. & Ward, J., Learning Beyond the Classroom:
Archaeological Sites and Schools. In: Conservation and Management of Archaeological Sites, 10
(1), 2008, pp. 78-92.
Dohse, K., Jürgens, U. & Malsch, T., From “Fordism” to “Toyotism”? The Social Organization of
the Labor Process in the Japanese Automobile Industry. In: Politics and Society, 39 (4), 2011, 115-
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Etchevarne, C. A. & Pimentel, R. (orgs.), Patrimônio arqueológico da Bahia. In: SEI Série Estudos
e Pesquisa, 88, 2011.
Frigotto, G. & Ciavatta, M, Educação básica no Brasil na década de 1990: subordinação ativa e
consentida à lógica de mercado. In: Educação e Sociedade, vol. 24, n. 82, 2003, p. 93-130.
Hale, T. A., Griots and Griottes. Masters of words and music. Indiana University Press:
Bloomington-Indianapolis, 1998.
Hodder, I., The Archaeological Process. An Introduction. Blackwell: Oxford, 1999.
Klein, N., A doutrina de choque. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2008.
Robertson, R., Glocalization: time-space and homogeneity-heterogeneity. In: Featherstone, M.,
Lash, S. & Robertson, R. (eds.), Global Modernities. Sage: Londres, 1995, pp. 25-44.
http://blogs.estadao.com.br/rodrigo-martins/2011/09/04/facebook-ultrapassa-orkut-em-usuarios-e-
acaba-com-reinado-de-7-anos-no-br/
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1007350-triplica-numero-de-casas-com-computador-diz-
ibge.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/949889-brasil-foods-vai-vender-dez-fabricas-para-atender-
cade.shtml
http://www.insee.fr/fr/themes/document.asp?ref_id=ip1340

Redes temporárias

Uma grande variedade de sistemas presentes na natureza, na sociedade e nas tecnologias – desde as redes de contatos sexuais na Internet até o sistema nervoso, passando pelas redes elétricas – podem ser modeladas como grafos com vertices ligadas por edges. A estrutura da rede, que descreve como o grafo é conectado, nos ajuda a entender, predizer e optimizar o comportamento de sistemas dinâmicos. Em diversos casos, porém, as edges não são ativas de forma contínua. Por exemplo, em redes de comunicação por email, mensagens de texto ou ligações telefônicas, as edges representam sequências de contatos instantâneos ou quase instantâneos. Em alguns casos, as edges são ativas para um periodo muito curto de tempo: em geral, os modelos de proximidade entre pacientes de hospitais podem ser representados por um grafo onde cada edge entre indivíduos acontece durante o tempo em que eles estão no mesmo quarto. Considerando a topologia das redes, a estrutura temporal da ativação das redes pode afetar as dinâmicas de sistemas interagindo. Neste artigo, apresentamos o campo emergente das redes temporárias, e estudamos métodos para analizar a estrutura topológica e temporária, e modelos para elucidar as suas relações com o comportamento geral dos sistemas dinâmicos. Pelo fato de propriedades fundamentais das redes não existirem necessariamente em redes temporárias, muitos métodos aplicáveis para as redes estáticas devem ser reavaliadas.

Traduzido e adaptado de arxiv.org.

A questão do caráter temporário das pinturas rupestres é ilustrado em diversos casos etnográficos, sobretudo na Austrália. Tribos aboriginais podem “reutilizar” sítios arqueológicos para realizar pinturas sem que os níveis mais antigos de ocupação pareçam ter influência sobre os novos grafismos. Naturalmente, não se pode negar totalmente a escolha do local enquanto reativação, ou reatualização, de práticas anteriores, mesmo se os novos grafismos não estão relacionados com os anteriores. Assim, há uma diversidade de processos que se desenvolvem ao mesmo tempo: alguns podem ser temporários (por exemplo, as pinturas) enquanto outros não (por exemplo, o sítio). A dificuldade é de perceber, no registro arqueológico, quem é quem.

Computadores e complexidade em arqueologia

Este texto aborda um dos temas transversais tratados por Ian Hodder em seu livro The Archaeological Process, An Introduction, e conhecido hoje pelo nome de arqueologia digital. Em um primeiro nível, trata-se da introdução da informática em todas as etapas do trabalho arqueológico, tanto no campo ou no laboratório quanto na divulgação dos trabalhos. Em um segundo nível, discutido aqui com mais detalhes, a arqueologia digital promove a integração dos conceitos utilizados no campo da informática na formulação das problemáticas pelos arqueólogos.

Neste respeito, utilizamos o exemplo da introdução do estudo da complexidade e dos sistemas não-lineares em arte rupestre para ilustrar o potencial das tecnologias digitais, tanto na prática, quanto na teoria arqueológica.

Usuário lambda

Ao longo das duas últimas décadas, a informática entrou de forma particularmente direta no cotidiano da população. Desde o início dos anos 90, sobretudo, embora já existiam computadores domésticos por vários anos, as interfaces com as quais era possível interagir com o mundo digital se tornaram cada vez mais abordáveis para um grande público.

De fato, o uso de computadores saiu de um pequeno mundo, restrito a algumas aplicações bem específicas em administrações públicas ou grandes empresas, para oferecer aplicações ligadas à vida cotidiana. Sem conhecimento particular nesta área, diversas soluções foram desenvolvidas para permitir um amplo uso da informática. Com a expansão da Internet também, à exemplo do sucesso das redes sociais como Orkut ou Facebook, há uma crescimento da presença da informática na rotina diária da população em geral. Esta aproximação aparece de forma evidente em um recente estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Milão, na Itália, a partir de dados da rede social Facebook. Atualizando o estudo realizado na década de 60 pelo americano Stanley Milgram, que identificou uma separação de entre 5 e 6 saltos para relacionar duas pessoas desconhecidas nos Estados Unidos pelo correio, eles obtiveram uma média de 4,74 saltos para conectar cerca de 721 milhões de usuários do mundo inteiro (Backström, Boldi, Rosa, Ugander & Vigna 2011).

A chamada « era digital », contudo, não pode ser superestimada. Na maioria dos casos, esta forma de utilização dos recursos digitais não implica o seu domínio. Regularmente, a criação de um endereço e-mail não implica um conhecimento de como funciona o mesmo. A facilidade com a qual as pessoas estão enganadas por mensagens falsas, supostamente enviadas para recadastrar as senhas segredas de sua conta bancária, revelam a distância que ainda separa a utilização da informática e o conhecimento dos seus mecanismos. As controvérsias sobre a forma com a qual certos sítios dispõem das informações que neles estão voluntariamente depositadas testemunha também de um profundo desentendimento do que, realmente, os usuários estão fazendo.

Não é diferente a situação na qual se encontra a arqueologia digital. Existem formas imediatas de aproveitamento do desenvolvimento da informática e, sobretudo, da Internet para melhorar a situação na qual se encontra a pesquisa arqueológica. Por exemplo, a rede mundial oferece uma solução material para os problemas de divulgação e de publicação de relatórios que foram apontados desde o início da arqueologia de contrato (O’BRIEN, LYMAN & SCHIFFER 2005: 156). Naturalmente, ainda depende fortemente da ação individual de um grupo de pessoas interessadas em criar um espaço dedicado, mas não há mais impedimento físico. Para a divulgação destinada ao grande público também, a informática oferece recursos até então inimagináveis: reconstituições virtuais nos museus, realidade aumentada nos sítios, acesso à informações cada vez mais complexas a partir de um mesmo ponto…

Ian Hodder apresenta ainda a introdução da informática no próprio sítio arqueológico, antes, durante e depois o próprio trabalho arqueológico. Com a criação de uma rede interna disponível para todos os membros da equipe de escavação, na qual eles podem disponibilizar seus relatórios, tanto escritos quanto audiovisuais, o sítio de Çatalhöyük oferece um excelente exemplo de como o mundo digital pode ser aplicado para melhorar a pesquisa do passado. No entanto, é importante ressaltar o fato que não se trata, neste caso, de nada mais que aquilo que poderia ser feito com papel e lápis, embora mais lentamente.

A valorização dos conceitos de reflexividade, contextualidade, interatividade, e multivocalidade o levaram naturalmente a procurar formas que maximizam o fluxo constante de informação entre as diversas pessoas que trabalham no sítio. Para Hodder, é a partir da interação contínua entre o antropólogo e o especialista em cerâmica, bem como entre estes dois e a própria pessoa escavando uma quadra, que o conhecimento pode ser produzido. Neste aspecto, o círculo hermenêutico permanece válido enquanto continua girando. Caso a comunicação for quebrada em algum ponto, a circularidade volta rapidamente a apresentar uma silhueta linear.

A informática se torna então uma ferramenta que permite a implantação efetiva e rápida dos conceitos que formam, segundo Hodder, o núcleo da arqueologia interpretativa ou pós-processualista. Esta aplicação direcionada especificamente para a arqueologia dificilmente ultrapassa, contudo, o nível de utilização lambda dos recursos que estão disponibilizados pela introdução dos computadores na vida cotidiana.

Arqueologia digital

Apesar desta limitação, a interação de um usuário lambda em determinada rede social, mesmo de forma extremamente limitada, nunca se reduz à simples postagem de vídeos favoritos, de comentários humorísticos sobre as notícias e rumores do dia. Ao mesmo tempo, há uma importante modificação na própria percepção do mundo, introduzida pelo acesso, ainda que remoto e virtual, à todas as informações disponíveis na rede inteira (RIVA & GALIMBERTI 2001). O mundo no qual evolui o usuário não é mais limitado à comunidade na qual nasceu ou se encontra no momento da sua conexão, ele passa a abranger lugares distantes e pessoas que permaneceriam desconhecidas para sempre por meios convencionais . Há também, no entanto, duas reservas importantes:

Primeiro, é certo que este ambiente aparentemente ilimitado existe também na natureza. Apesar das barreiras erguidas por rios ou cadeias de montanhas, as sociedades humanas sempre estabeleceram contatos mais ou menos próximos umas com as outras. Não há certeza de que o fato de se tornar amigo de outra pessoa morando do outro lado do planeta promoverá, por exemplo, uma mudança mais importante na relação entre o usuário e o ambiente no qual vive do que se ele se aproximasse do seu vizinho de casa. Localmente, seria até provavelmente o contrário.

Segundo, as tecnologia digitais não são livres de obstáculos próprios. O mais importante, o acesso ao computador e aos principais servidores ainda cria uma importante fratura na sociedade (diversos exemplos ao redor do mundo demonstram que não se trata apenas do acesso físico à máquina, ver WARSCHAUER 2004). A língua é outro obstáculo, impedindo a real interação entre redes de diversos países ou regiões que falam línguas ou dialetos distintos.

Gradualmente, no entanto, diversos conceitos bastante elaborados estão também introduzidos no imaginário social: realidade virtual, feedback, evolução em tempo real, conectividade, etc. Se estes conceitos provocam uma mudança na percepção social e ambiental dos usuários é sujeito de controvérsias. Há um grande debate, por exemplo, para avaliar o papel da informática em diversas importantes manifestações que ocorrem atualmente em diversos pontos do planeta: as revoltas árabes na Tunísia e no Egito foram regularmente (e talvez abusivamente) associadas à Twitter, enquanto os protestos que acompanham todas as reuniões do G20 ou o movimento Occupy Wall Street são coordenados em tempo real por e-mail ou cartografia digital. De forma mais cruel, a existência de fóruns especializados para movimentos de extrema-direita, seja na Escandinávia ou em outros lugares, facilita também a divulgação de ideologias doentes e o planejamento de crimes brutais. Em que amplitude, no entanto, permanece uma pergunta difícil a responder.

Em Digital Archaeology: Bridging method and theory, Patrick Daly e Thomas L. Evans descrevem a arqueologia digital, « não tanto como uma especialidade, ou uma escola teórica, mas como uma abordagem – uma maneira de melhorar a utilização dos computadores, baseando-se no entendimento da força e dos limites dos computadores e das tecnologias da informação como um todo. » (Daly & Evans 2006: 2). Mais do que um uso simples da ferramenta, eles defendem então o entendimento, por parte dos arqueólogos, dos seus mecanismos, componentes, capacidades e limites.

O tema é abordado por Ian Hodder, que privilegia, porém, elementos anexos como fluxos de informação, Internet ou hipertexto, que aparecem mais compatíveis com a sua linha de pesquisa interpretativa e multivocal. A utilização que ele promove da informática em Çatalhöyük, com computadores disponíveis nas trincheiras para os pesquisadores e todos aqueles que estão envolvidos nas escavações, é apresentada de forma muito positiva. Ele introduz também, embora muito mais timidamente, diversos conceitos de sistemas não-lineares e da teoria do caos, sem oferecer mais explicações. Considerando o estado da pesquisa, e as poucas aplicações que existem hoje para o campo da arqueologia, é um fato que a simples menção destes assuntos constitui uma etapa importante.

A relação entre o desenvolvimento da informática, enquanto forma de armazenar e tratar pacotes de dados cada vez maiores, e a pesquisa sobre a dinâmica de sistemas não-lineares é essencial. Tomamos o exemplo do caso de um lápis colocado na ponta. Segundo a lei da gravidade, sabemos que ele acabará caindo. A direção e o momento exato da queda, no entanto, dependem de uma multiplicidade impressionante de fatores, cuja ordem de prioridade mudará a cada instância. De fato, o lápis dificilmente cai duas vezes da mesma maneira. Estudar a dinâmica do fenômeno implica a definição e, sobretudo, o registro de dezenas de parâmetros com valores sempre diferentes. Algo que, pratica e materialmente, não é concebível sem o auxílio de computadores.

No campo da arqueologia, e da pré-história em particular, o estudo da dinâmica é um tema recorrente desde os trabalhos de Lewis Binford. No entanto, a influência do uniformitarianismo e do evolucionismo cultural nunca permitiu que ele considerasse a possibilidade de uma dinâmica não-linear, na qual a definição de leis, naturalmente, se limita a quadros gerais: afinal, para o estudo da queda do lápis, a lei da gravidade – sem desconsiderar a importância da sua formulação para o campo da física – se aproxima daquilo que Kent Flannery chamava de lei de Mickey Mouse. Da mesma forma, podemos afirmar sem medo que, uma vez posto em qualquer ambiente, um grupo humano buscará organizar-se. As formas – material, logística ou simbólica – desta organização, no entanto, dependerão de uma multidão de fatores, a partir dos quais seria ilusório (ou, no mínimo muito complicado) fazer generalizações efetivas.

Cultura não-linear

Portanto, o estudo da dinâmica dos sistemas não-lineares e a teoria do caos têm relações diretas, apesar de obscuras, com os registros arqueológicos. Na visão quase newtoniana da arqueologia clássica, a nossa observação de padronizações nos vestígios pré-históricos é explicada pela sua organização, consciente ou não, no passado. As relações entre os grupos de caçadores-coletores e o ambiente deveriam, portanto, ser entendidos em termos de equilíbrio e estabilidade (BETTINGER 1991:154). Em contrapé a esta perspectiva, cientistas não-lineares afirmam que o caos pode, ele também, produzir padronizações (PRIGOGINE & STENGERS 1986). Desta forma, se tornaria difícil deduzir da simples recorrência de traços arqueológicos a existência automática de uma padronização cultural, entendida como forma de organização social consciente ou não, mas necessariamente não-caótica.

Em arte rupestre também, este tema abra caminhos interessantes. A definição mesmo do termo “tradição”, enquanto conjuntos de traços gráficos que atravessam o tempo e o espaço, carrega invariavelmente, quando não é definido, um sentido linear. Introduz naturalmente uma relação direta entre padronização e uma certa estratigrafia cultural. Há duas objeções:

  • Primeiro, como foi demonstrado já nos anos 60 (ÜCKO & ROSENFELD 1966), a multiplicidade dos estilos gráficos não pode servir de estrita referência cronológica, uma vez que diversas formas de representação (figurativa, geométrica, etc.) foram utilizadas nas mesmas épocas.
  • Segundo, a nossa incapacidade em entender o simbolismo dos grafismos, além do reconhecimento de certos traços, não pode servir de base sustentável para a definição do que são as padronizações em arte rupestre. Dois grafismos, embora um seja geométrico e o outro figurativo, podem ter o mesmo sentido, sem que a nossa classificação possa testemunhar.

O que significaria então uma padronização observada na arte rupestre, em termos não-lineares?

  • É necessário reverter a perspectiva com a qual consideramos a emergência do sítio rupestre. O conceito clássico de tradição implica uma visão de cima para baixo (do mais antigo para o mais recente): um conjunto de referências gráficas transmitidas de geração em geração desde a sua elaboração. Uma perspectiva revertida, de baixo para cima, envolve a reativação ou reinvenção (mas não transmissão) das referências gráficas, por cada grupo ou geração que passou pelo sítio.
  • Este primeiro ponto propõe uma versão menos conservadora das culturas pré-históricas, na qual as populações são agentes constantes da sua construção, e não apenas tributários. É um conceito de cultura viva, para o qual a estabilidade e o equilíbrio não são as características principais. Nesta perspectiva, identificar padronizações não oferece respostas adequadas. De certa maneira, o próprio ato de registrar informações em suportes rochosos, independentemente do estilo e da forma, já constitui uma padronização. Vale a pena notar, também, a importância crescente do conceito de cultura viva no Brasil nesta última década (TURINO 2009).
  • As formas gráficas adotadas para as reinvenções sucessivas exprimem uma identificação auto::hetero na qual o passado tem um papel importante. As escolhas técnicas, morfológicas e/ou temáticas acontecem em um tecido de relações de complexidade crescente, entre o próprio grupo, os outros grupos contemporâneos, o ambiente e o passado, que permanece passível de reformulações – como pode ser o caso para diversos exemplos de superposições.
  • A padronização não é mais consequência de um, e sim de vários processos. Por causa do nosso desconhecimento da forma tomada por cada um deles, se aproximam de múltiplos processos estocásticos. Todos em conjunto, o seu comportamento não é igual ao comportamento individual das partes.

Estas considerações ocupam o lugar dos “pre-judgements” descritos no inglês britânico de Ian Hodder. A prioridade da orientação do trabalho pelos dados permanece no centro da perspectiva não-linear, e na arte rupestre, são necessariamente os grafismos que nutrem o raciocínio do arqueólogo. Por comparação, o estudo dos sistemas dinâmicos pode entrar na espiral hermenêutica para fomentar novas abordagens para os dados. Oferece também a possibilidade de reconsiderar as propostas feitas anteriormente para, eventualmente, ultrapassar os seus obstáculos.

Conclusão

Permanecem abertas diversas pergunta: como tornar o registro arqueológico dinâmico? Qual é a relação entre assemblagens distintos? O estudo dos sistemas não-lineares não permite, de repente, resolver todos os problemas. No entanto, oferece informações preciosas sobre a natureza desta dinâmica, sobre o seu comportamento. Sobretudo, insiste na importância do contexto individual, sempre mudando, em que cada fenômeno é observado. Como lembra Hodder, as perguntas que o arqueólogo pode fazer dependem do tipo de dados que estão à sua disposição.

Referências bibliográficas

BACKSTRÖM, L., BOLDI, P., ROSA, M., UGANDER, J. & VIGNA, S., Four degrees of separation. In: Arxiv, 1111.4570, 2011.
BETTINGER, R. L., Hunter-Gatherers. Archaeological and evolutionary theory. New York: Plenum Press, 1991.
DALY, P. & EVANS, Th. L., Digital archaeology: bridging method and theory. New York: Routledge, 2006.
HODDER, I., The archaeological process. An introduction. Oxford: Blackwell, 1999.
O’BRIEN, M., LYMAN, R. L. & SCHIFFER, M., Archaeology as a Process. Processualism and its Progeny. Salt Lake City: University of Utah Press, 2005.
PRIGOGINE, I. & STENGERS, I., La nouvelle alliance. Paris: Gallimard, 1986.
RIVA, G. & GALIMBERTI, C., Towards Cyberpsychology: Mind, Cognition and Society in the Internet Age, Amsterdam: IOS Press, 2001.
TURINO, C., Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima, São Paulo: Anita Garibaldi, 2009.
ÜCKO, P. J. e ROSENFELD, A., L’Art Préhistorique. Paris: Hachette, 1966.
WARSCHAUER, M., Technology and social inclusion: rethinking the social divide. Cambridge: MIT Press, 2004.

Intermediaridade como motor da conexão preferencial

Betweenness Centrality as a Driver of Preferential Attachment in the Evolution of Research Collaboration Networks, por Alireza Abbasi, Liaquat Hossain e Loet Leydesdorff.

Procuramos saber se a conexão preferencial nas redes de colaborações científicas é diferente para autores com formas diferentes de centralidade. Com um banco de dados completo para pesquisa sobre “estruturas de aço”, mostramos que a centralidade de intermediaridade (betweenness centrality) de um nó existente permite predizer de maneira mais significativa a conexão preferencial dos novos nós, comparado à centralidade de proximidade ou o grau.

Durante o crescimento de uma rede, a conexão preferencial se desloca da centralidade de grau (local) para a centralidade de intermediaridade enquanto medida global. Uma possível interpretação é que os orientadores de pesquisa de doutorado e pós-doutorado compartilham o acesso aos novos entrantes e à rede pré-existente, se tornando assim centrais para a conexão preferencial. Por causa desta mediação, redes acadêmicas podem se desenvolver de forma diferente daquelas que são baseadas em conexão preferencial para nós com grau alto.

Traduzido e adaptado de Arxiv.org

Aparece sempre, por trás dos dados de uma rede, um contexto humano que pode explicar a maneira com a qual novos nós interagem com a rede pré-existente. Em arte rupestre, esta relação com as populações que realizaram os grafismos é fundamental, mesmo se a nossa capacidade em alcançar os grupos pré-históricos é muito mais remota. Podemos até entender as etapas do crescimento de um sítio, mas se não conseguimos relacionar isto com o contexto humano, será de pouca utilidade.

4 graus de separação

Four Degrees of Separation, por Lars Backstrom, Paolo Boldi, Marco Rosa, Johan Ugander e Sebastiano Vigna.

O escritor húngaro Frigyes Karinthi, no seu texto de 1929 L’aancszemek (Cadeias) sugeriu que duas pessoas são separadas por, no máximo, seis relações de amizade. A frase exata na história é levemente ambígua: “Ele apostou que, utilizando apenas 5 indivíduos, um sendo pessoalmente conhecido, ele entraria em contato com o indivíduo escolhido […]”. Não é muito claro se o indivíduo escolhido fazia parte dos cinco, então poderia significar uma distancia de 5 ou 6 na linguagem da teoria dos grafos, mas a expressão “seis graus de separação” ficou conhecida com a peça do mesmo nome de John Guare, em 1990. Segundo a interpretação dele, assumimos que “grau de separação” quer dizer “distancia menos um”.

No famoso trabalho de Stanley Milgram, as pessoas recebiam o desafio de encaminhar cartões postais para um receptor fixo, passando apenas por conhecidos diretos. A distancia média do caminho dos cartões se situava entre 4.6 e 6.1, dependendo da amostra escolhida.

Apresentamos os resultados da primeira modelização da distancia de uma rede social em escala global, utilizando a totalidade da rede de usuários ativos do Facebook (aproximadamente 721 milhões de pessoas e 69 bilhões de relações de amizade). A distancia média que observamos é de 4.74, demostrando assim que o mundo é ainda menor que esperado. De forma mais geral, estudamos a distribuição da distancia no Facebook e em diversos subgrafos geográficos, analisando também a sua evolução no tempo.

As redes que estudamos são quase duas vez maiores que todas aquelas analizadas anteriormente. Apresentamos meta-dados estatísticos detalhados mostrando que as nossas medidas (que dependem de algoritmos probabilísticos) são muito precisos.

Traduzido e adaptado de arxiv.org