Datação de uma Gravura Rupestre em MG

Uma equipe formada por Walter A. Neves, Astolfo M. G. Araujo, Danilo V. Bernardo, Renato Knipis e James K. Feathers publicou os resultados da datação relativa de uma gravura rupestre encontrada no sítio da Lapa do Santo, em Minas Gerais. Dois métodos, C14 e TL, permitem avançar que a gravura foi realizada na transição entre Pleistoceno e Holoceno, 11.7±0.8 ka BP to 9.9±0.7 ka BP (ou seja, tempo atrás). Além disso, a representação de um antropomorfo com cabeça em meia-lua (c, ou caju) pode indicar contatos entre esta região e o Seridó, onde este estilo de grafismo é muito típico.

O artigo, em inglês, está disponível em http://www.plosone.org/article/info:doi/10.1371/journal.pone.0032228

Contudo, não conheço o grau de certeza que há com estes métodos de datação (TL em grãos de quartzo, com muitas amostras descartadas). Outras datações obtidas no Seridó não apresentaram datas tão remotas, e sim mais provavelmente em torno de 8000-6000 BP. Ao meu ver, a questão de saber se é, ou não, a mais antiga gravura das Américas é de pouca importância. Tampouco importa o que significa para o universo simbólico destas populações. É de maior importancia, no entanto, o fato que ela se integra, de alguma forma, dentro do corpus que já temos, e que ajude a entender-lo melhor. Neste sentido, vale destacar uma citação do artigo: “Isso sugere contatos culturais [ou não, NDC] entre grupos distante de pelo menos 1.600 km no início do Holoceno no Leste da América do Sul.”

Caderno v0.01

Uma primeira semana de escavações em maio de 2009 permitiu coletar os dados necessários para tentar construir a primeira rede de pinturas rupestres da Toca do Pepino.
Cada figura humana identificada no sítio foi vectorizada. Foram depois numeradas, de 1 até 237. Para visualizar a rede, usei um plugin gratis para Excell, chamado NodeXL. Permite utilizar diretamente os dados do programa, de visualizar graficamente os resultados e de calcular algumas medidas. Não é tão potente quanto um verdadeiro programa de análise das redes, mas é de fácil utilização.

Primeira Rede

Baseada na tipologia elaborada in situ, uma primeira visualização da rede apontou os diversos tipos de figuras, identificadas de T01 à T16. As figuras inclassificáveis foram eliminadas para facilitar a leitura. As ligações em cores indicam os casos de superposição (em azul), os casos de objetos identicos (em verde) e aqueles onde duas figuras de tipos diferentes aparecem na mesma cena (em amarelo):

 

 

A repartição das figuras pode induzir ao erro, por causa do número de cenas nas quais aparecem muitos personagens. Assim, a importância do tipo 5 (figuras com cabeça de caju) poderia vir do fato que geralmente estão em grupos. No entanto, uma repartição baseada no número de cenas mostra a mesma distribuição:

A primeira vista, então, trata-se de um distribuição em “escala livre”. Num segundo momento, a rede foi reconstruida com base em novos elementos: desta vez, apenas as características gráficas de cada figuras, e não mais o seu tipo, foram cnsideradas. 5 elementos foram guardados: decorações no corpo, desenho dos olhos, desenho da boca, presença de objeto e desenho das articulações (cotovelo ou joelho):

As figuras isoladas foram relevadas com uma ligação para elas mesmo (NodeXL não deixa aparecer nós que não tenham ligações). Nesta base, algumas medidas da rede foram calculadas:

 

Centralidade

A medida de Centralidade de Intermediação é a mais interessante de todas. Ela identifica diversas figuras situadas na beira dos grandes conjuntos. E no meio delas, encontramos elementos característicos de outros sítios do Nordeste:

Na esquerda, duas figuras encontradas na Toca do Pepino. Na direita, três figuras de Carnaúba dos Dantas, na região do Seridó.

Regional

Primeiro, imaginei que a rede das pinturas dos sítios que eu vi em Morro do Chapéu, BA, estavam ligados entre si. É uma conclusão fácil de se fazer, ao ver as figuras. Mas agora que eu estou avançando, devo admitir que a rede é muito mais extensa do que parecia. Na verdade, parece diretamente ligada com duas sub-tradições gráficas que já estão bem documentadas, no âmbito da tradição Nordeste :

  • A subtradição Várzea Grande, PI, sobretudo em relação com as figuras de olhos grandes que trocam vegetais ;
  • A subtradição Seridó, RN, cuja segunda fase é caracterizada pelas cabeças de caju, que podemos chamar « pacman » porque é muito mais fácil para os francofones (que não comem muito caju, vale a pena precisar).

O interesse desta nova ligação, é que as pesquisas arquéológicas realizadas em sítios destas subtradições já revelaram data – ou pelo menos, alguma escala de tempo. No caso de Várzea Grande, câmadas dataveis recobriam uma série de pinturas, estabelecendo assim um terminus ante quem (o momento antes do qual podemos ter certeza que foram pintadas) por volta de 5000 antes do presente. Em relação ao Seridó, vários esqueletos foram encontrados no sítio de Carnaúba dos Dantas, datados entre 2600 e 9400 antes do presente.

Seridó

Atualmente, as pinturas da Chapada Diamantina estão reunidas em uma subtradição chamada Central, do nome de um município na região. No caso que nos interessa, parece que outras tradições presentes em outros locais, se espalharam até a Chapada Diamantina. Ou pelo menos, em algo momento : grupos diferentes podem aparecer no mesmo sítio em épocas diferentes sem que isso seja necessariamente perceptível.