CAA 2017 em Atlanta

CAA2017

Estarei de 13 a 17 em Atlanta, na Georgia, para o Computer Applications in Archaeology 2017, com dois trabalhos:

  • Networks as a theoretical framework for rock art studies in Northeast Brazil, na sessão Archaeological Networks: Uncertainty, Missing Data, and Statistical Inference;
  • The dynamics of Brazilian rock art landscape: an agent-based modelling approach to theories na sessão Data, Theory, Methods, and Models. Approaching Anthropology and Archaeology through Computational Modeling.

 

Rede multilayer

Esta é a estrutura da minha rede social a partir dos dados de um website bem conhecido, extraída com Netvizz e importada no Gephi. Tudo anônimo, naturalmente. Para simplificar, considero apenas o cluster principal. Instalei também uma extensão importante, Give Color to Nodes.

Basic

O programa permite identificar as comunidades que existem nos dados, e que correspondem aqui – porque é um exemplo simples – aos agrupamentos que resultam do processo de energização da rede. A energização procura juntar indivíduos semelhantes e afastar indivíduos diferentes. Aqui, semelhantes são aqueles que têm relações entre si e, possivelmente, entre amigos diretos também. Como a identificação das comunidades – conhecida como modularidade – parte da probabilidade que um conjunto de relações exista também numa rede aleatória, estes agrupamentos são imediatamente encontrados.

Modular

Sem entrar muito nos detalhes, e apesar de vê-las todas reunidas sob um único vocábulo que pode dar a impressão que são o fruto de um único processo, as minhas comunidades são construções históricas diferentes. Embora o resultado final seja uma aglomeração de indivíduos particularmente interligados, a modularidade equipara os pessoas que conheço desde a escola do primeiro grau na Bélgica, moradores de uma charmosa cidade da Bahia, e e o povo mal-assombrado da arqueologia nordestina (em azul, la na esquerda). No mesmo grafo, tenho comunidades geográficas, funcionais, profissionais, familiais, etc. Mas todas aparecem em igualdade. Então, se as comunidades são realidades diferentes, como se aproximar dos processos históricos que estão na base de sua formação?

Com estes dados, é simplesmente impossível. Não adianta. Já podemos ser gratos pelo fato de podermos identificar comunidades. A única solução, então, consiste em cruzar estes dados com informações adicionais, extraídas de alguma outra fonte. Mais fontes alternativas existirem, maiores são as chances de poder associar as comunidades com processos históricos. Por exemplo, cruzando os dados iniciais com o local de origem de cada indivíduo, é provável que as comunidades de cunho geográfico sejam identificadas. A priori, nada nos diz que a geografia seja uma variável relevante. No meu caso, Belga radicado no Brasil, a nacionalidade deveria permitir alguma aproximação.

Origins

E de fato, a organização dos indivíduos da rede segundo a nacionalidade oferece uma primeira aproximação do processo de formação das comunidades. Uma delas é composta por pessoas dos dois continentes, enquanto as outras são exclusivamente belgas (verde) ou brasileiras (azul). Outro elemento que pode ser considerado, é a distribuição por gênero.

Gender

A identificação das mulheres e dos homens no grafo resulta numa distribuição muito mais caótica. Parece realmente que o gênero não seja uma variável relevante para entender a formação das minhas comunidades. Um terceiro elemento que poderia definir a estrutura do grafo é o percurso escular e universitário, no qual passei mais de… hum, 22 anos da minha curta vida.

Acad

Esta partição dos dados é interessante, sobretudo, comparada com as informações geográficas. Os dois núcleos importantes de pessoas que encontrei no meio escolar estão localizadas nas extremidades do grafo. Mas as comunidades que fazem a ligação neste cluster inteiro não são acadêmicas. Do ponto de vista da arqueologia nordestina, a separação em duas comunidades encontra sua explicação neste grafo: uma vem da universidade , a outra não.

Cada uma desta partições corresponde a uma camada separada de informação. A rede inicial era, então, uma rede multilayer cujas camadas foram todas comprimidas e cujas informações respectivas foram apagadas. Desta maneira o Gephi aplicou um algoritmo que considerou todos os dados da mesma maneira. Ao reinjetar informações alternativas nesta rede, porém, podemos – aos poucos, por tentativas e erros – encontrar formulações mais precisas para a dinâmica de formação. Encontramos também variáveis que não são adequadas para entender a estrutura dos dados.

O que tem a ver com arqueologia? Bem, na maioria dos casos, o arqueólogo encontra uma rede montada pela superposição de diversas camadas. E os agrupamentos de vestígios em uma camada não correspondem necessariamente aos agrupamentos de outra camada. Quero dizer, os lugares mudam de função o tempo todo, e extrapolar as informações de um extrato arqueológico para os outros é um exercício perigoso. Assim, como nesta rede social, o arqueólogo trabalha com comunidades de dados formadas por processos diferentes. Por isso, é importante definir variáveis mais e menos relevantes para cada uma delas. Quando é possível. Raramente. Mas tentamos assim mesmo.

Próxima vez, tentaremos quantificar tudo isso.

Connected Past 2014

Saiu o programa oficial do Connected Past 2014, que será organizado em Paris, no dia 26 de abril. O meu pôster está garantido para tratar das interações e da análise das redes em Morro do Chapéu.

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9h-9h45 Recepção, café, introdução
9h45-11h Primeira sessão: redes e mobilidade

  • Eivind Heldaas Seland : Tracing trade routes as networks: From Palmyra to the Persian Gulf in the first three centuries CE
  • Henrik Gerding e Per Östborn : Network analyses of the diffusion of Hellenistic fired bricks
  • Marie Lezowski : Cohesion through mobility : the networks of relics in 17th-century Lombardy

11h-11h15 Pausa café
11h15-12h30 Segunda sessão: dinâmica das redes e comparações entre períodos

  • Habiba, Jan C. Athenstädt e Ulrik Brandes : Inferring Social Dynamics from Spatio-Temporal Network Data in the US Southwest
  • Ana Sofia Ribeiro : Resilience in times of Early Modern financial crises: the case study of Simon Ruiz network, 1553-1606
  • Marion Beetschen : Social Network Analysis as a Complementary Methodological Tool in History

12h30-13h45 Pause déjeuner
13h45-15h Terceira sessão: Intercâmbios inter-culturais

  • Angus A. A. Mol e Floris W. M. Keehnen : Tying up Columbus: A historical and material culture study of the networks that resulted from the first European voyages into the Caribbean (AD 1492-1504)
  • Francisco Apellaniz : Cooperating in Complex Environments: Cross-cultural Trade, Commercial Networks and Notarial Culture in Alexandria (Egypt) : 1350-1500
  • Florencia Del Castillo et Joan Anton Barceló : Inferring the intensity of Social Network from radiocarbon dated Bronze Age archaeological contexts

15h-15h15 Pausa café
15h-15h50 Quarta sessão: interações políticas

  • Stanley Théry : Social network analysis between Tours notables and Louis XI (1461-1483)
  • Laurent Beauguitte : Models of historical networks: A methodological proposal

15h50-16h45 Última sessão. Apresentações orais dos pósters e discussão geral

  • Zeynep Aktüre : The Ancient Theatre Network in the Mediterranean: A Structuralist Interpretation Inspired from Fernand Braudel’s Three Planes of Historical Time
  • Thibault Clérice e Anthony Glaise : Network analysis and distant reading: The Cicero’s Network
  • Damian Koniarek, Renata Madziara e Piotr Szymański : Towards a study of the structure of the business & science social network of the 2nd Polish Republic
  • Susana Marcos : Familial alliances, social links et geographical network. The example of the province of Lusitania in the Roman Empire (to be confirmed)
  • Stefania Merlo Perring : The ChartEx Project. Reconstructing spatial relationships from medieval charters: a collaboration between Data Mining and Historical Topography
  • Sébastien Putniak : Archaeology as practical mereology: an attempt to analyze a set of ceramic refits using network analysis tools
  • Grégoire van Havre : Interactions and network analysis of a rock art site in Morro do Chapéu, Bahia, Brazil
  • Beatrice Zucca Micheletto : Network analysis and gender’s studies: some issues from the Italian case (Turin, 17th-18th centuries)

16h45 Discussões informais e encerramento

Curvas e Esferas

O problema do número de critérios envolvidos na construção das redes não se torna mais tão importante, a partir do momento em que aparece mais como um problema de resolução (como no caso de uma máquina mais performante) do que de identificação mesmo.

As possibilidades para outros objetos arqueológicos dependem do tipo de material. Sem a identificação de uma determinada peça à observar, não é possível esperar resultados, da mesma forma que a simples rede não dá resultados. Seria necessário, então, dispor de um objeto que se encontra nas margens de outros conjuntos maiores. Peças intermediárias, de fronteira, de contato, de interação. Atratores estranhos.

Vamos imaginar um tipo de esfera de interação com trocas materiais. Dois sítios são escavados em uma região e, no meio dos diversos artefatos, são encontrados objetos X. Aqui uma rede seria construída, não em cima de critérios morfológicos, e sim a partir de critérios baseados nas escavações: presença de objetos da mesma classe em determinadas unidades ou estruturas… Parece complicado a primeira vista, mas precisaria definir critérios que permitam montar uma rede bimodal.

Topologia da rede: articulação espacial da rede.

Para as interações, a posição das figuras estudadas nas curvas deve ser entendida no contexto da topologia própria a cada sítio/rede. É da combinação topologia/curva A x topologia/curva B que podemos tirar observações.

Tutorial NodeXL

NodeXL é um plugin em licença livre de análise exploratória das redes desenhado para funcionar a partir de planilhas Excell. Toda a documentação é disponível em inglês, mas há poucas coisas para o público francofono e lusofono. Este tutorial é extremamente básico, para oferecer apenas uma visão geral de uma pequena rede.

Dados

Vamos imaginar 10 arqueólogos trabalhando cada um em uma área específica. Alguns já realizaram varias colaborações científicas juntos, e nos queremos saber em quais áreas a pesquisa é mais avançada. Os autores são : Maurice (numismática), Jean-Pierre (dendrocronologia), Philippe (cerâmica), Fabienne (egitologia), Christophe (pré-história), Fabrice (GIS), Emile (fósseis), Jos (etnologia), Christiane (arquelogia sub-marina) et Marie-Chantale (arqueometria).

Em 2010, esta foi a lista das colaborações que publicaram em prestigiosas revistas especializadas do charmoso pequeno mundo da arqueologia francofona:

Maurice, Fabienne : A moeda egípcia.
Christophe, Emile : Um femur descoberta em um sítio Neandertal.
Christophe, Jean-Pierre : Nova datação para a Dordogne.
Fabrice, Marie-Chantale : Mapeamento das antigas florestas de Walonia.
Fabrice, Philippe : Depósitos cerâmicos em estrada romana.
Christophe, Emile, Marie-Chantale : As escavações da sepultura de uma criança gaulense.
Jos, Philippe : A cerâmica dos X’ang.
Maurice, Jos : Chegada da moeda nos tribos nomades do Calahari.

Exploração

1. O programa começa com diversas planilhas virgens: Edges, Vertices, Clusters , Cluster Vertices et Overall Metrics. Num primeiro momento, vamos entrar os dez autores na planilha « Vertices ». Podemos imediatamente especificar o nome de cada na coluna Label, para maior facilidade na hora de vizualizar a rede.

2. Em seguido, vamos entrar as publicações comuns na planilha « Edges », indicando o nome de cada autor em Vertex 1 e Vertex 2. Um dos artigos tem três autores, e teremos três relações binárias (A-B, B-C et A-C). Neste exemplo, pouco importa quem é Vertex 1 e quem é Vertex 2, poís a rede é unidirecional (escreveram juntos e não à pedido de um só). Podemos também especificar imediatamente a coluna Label para maior clareza.

3. Clicando no botão « Show Graph », vizualizamos a organização das colaborações, logo com uma primeira observação: Christiane, que não publicou artigos em 2010, está ausente da rede. Se for importante mencioná-la (para motivos estéticos ou didáticos), sempre é possível atribuir um « loop » para ela, ou seja, uma relação para ela mesma (o seu nom aparece tanto em Vertex 1 quanto em Vertex 2 da planilha Edges). Isso tem o risco de modificar as medidas. Alguns programas mais avançados, como Pajek, permitem vizualizer as vertices isoladas sem atrapalhar as medidas.

4. Agora, podemos fazer uma série de calculos sobre a rede, clicando no botão « Graph Metrics », na guia NodeXL. A caixa de dialogo permite selecionar certas opções que não são necessárias para este tutorial. O resultado das medidas aparece de forma numérica na planilha Vertices, e na forma de diagramas na planilha Overall Metrics. O que podemos observar?

a. Dois arqueólogos publicaram três artigos, cinco publicaram 2 e dois escreveram apenas um enquanto uma não trabalhou. Já sabiamos disso, mas está confirmado pelo seu Degree (grau) respectivo.

b. Contudo, a posição dos dois autores os mais produtivos, Marie-Chantale e Christophe, não é a mesma na rede. A medida de Betweenness Centrality (intermediaridade) é de 15 para a primeira, contra apenas 7 para o segundo.

c. Mas é Fabrice, que publicou apenas dois artigos, que tem a maior medida, 16. Isso significa que sem a presença dele, teriamos duas redes menores e completamente separadas. Tirar Christophe, ao contrário, teria o efeito de isolar Jean-Pierre apenas.

d. Se consideramos as áreas de atividades, e não mais as pessoas, é o GIS (16), a cerâmica (15) e a arqueometria (15) que são as disciplinas as mais centrais. Não publicaram individualmente o maior número de artigos, mas estão no meio de todas as publicações. A egitologia e a dendrocronologia são as mais marginalizadas, o que já aparecia no número de artigos.

5. Clicando no botão « Find Clusters », NodeXL vai identificar automaticamente os sub-grupos no interior da estrutura da rede. São três neste caso.

Algumas observações, que já podiamos fazer a partir de uma análise quantitativa das publicações por autor/área, foram confirmadas pela análise da rede. É o caso da marginalização de Jean-Pierre e de Fabienne, assim como da ausência de Christiane. Porém, o papel de Christophe, que parecia importante pelo número de artigos, foi reavaliado. Ele ocupa um lugar finalmente bastante periférico na rede, porque todos os seus colaboradores estão ligados entre si. Marie-Chantale ocupa, neste nível, um lugar muito mais fundamental. Enfim, o papel de Fabrice e, de forma menos forte, de Philippe, também é importante para a comunicação dentro desta pequena comunidade científica, porque ele estabelece uma ponte entre os dois clusters/sub-grupos.

Caderno v0.01

Uma primeira semana de escavações em maio de 2009 permitiu coletar os dados necessários para tentar construir a primeira rede de pinturas rupestres da Toca do Pepino.
Cada figura humana identificada no sítio foi vectorizada. Foram depois numeradas, de 1 até 237. Para visualizar a rede, usei um plugin gratis para Excell, chamado NodeXL. Permite utilizar diretamente os dados do programa, de visualizar graficamente os resultados e de calcular algumas medidas. Não é tão potente quanto um verdadeiro programa de análise das redes, mas é de fácil utilização.

Primeira Rede

Baseada na tipologia elaborada in situ, uma primeira visualização da rede apontou os diversos tipos de figuras, identificadas de T01 à T16. As figuras inclassificáveis foram eliminadas para facilitar a leitura. As ligações em cores indicam os casos de superposição (em azul), os casos de objetos identicos (em verde) e aqueles onde duas figuras de tipos diferentes aparecem na mesma cena (em amarelo):

 

 

A repartição das figuras pode induzir ao erro, por causa do número de cenas nas quais aparecem muitos personagens. Assim, a importância do tipo 5 (figuras com cabeça de caju) poderia vir do fato que geralmente estão em grupos. No entanto, uma repartição baseada no número de cenas mostra a mesma distribuição:

A primeira vista, então, trata-se de um distribuição em “escala livre”. Num segundo momento, a rede foi reconstruida com base em novos elementos: desta vez, apenas as características gráficas de cada figuras, e não mais o seu tipo, foram cnsideradas. 5 elementos foram guardados: decorações no corpo, desenho dos olhos, desenho da boca, presença de objeto e desenho das articulações (cotovelo ou joelho):

As figuras isoladas foram relevadas com uma ligação para elas mesmo (NodeXL não deixa aparecer nós que não tenham ligações). Nesta base, algumas medidas da rede foram calculadas:

 

Centralidade

A medida de Centralidade de Intermediação é a mais interessante de todas. Ela identifica diversas figuras situadas na beira dos grandes conjuntos. E no meio delas, encontramos elementos característicos de outros sítios do Nordeste:

Na esquerda, duas figuras encontradas na Toca do Pepino. Na direita, três figuras de Carnaúba dos Dantas, na região do Seridó.

Limites

Nos artigos publicados cada ano (cada mês, na verdade), a análise das redes alcança uma série de redes diferentes, sejam elas sociais, físicas ou acadêmicas: os membros de uma associação, as economias de uma região, as células de um organismo ou as notas de rodapé de um revista famosa.

Quando os dados não evoluem com o tempo, fala-se de uma rede estática. As suas características são bastante conhecida há muito tempo, mas ainda há novos algoritmos elaborados ou refinados hoje em dia. No entanto, quando as características evoluem com o tempo, trata-se de uma rede dinâmica. E o campo de estudo deste tipo de fenômeno ainda está engatinhando.

A análise da dinâmica de uma rede, tipo aquele formado pelas ligações telefônicas realizadas dentro de um grupo durante uma ou duas semanas, não apresenta estrutura fixa, e os equilibrios parecem se fazer e se desfazer por vontade própria. O estudo da auto-organização das redes está provavelmente fazendo explodir vários cérebros ao redor do planeta.

Mickey Mouse

Afinal, existe um certo limite natural ao estudo das redes, que aparece quando se aproxima do libre-arbitre ou da vida social dos elementos que o compõem (admitindo que tenham uma, claro). Um rede representando o envio e a recepção de emails em um campus universitário pode eventualmente mostrar alguns picos, e é interessante perceber se eles obedecem aos mesmos príncipios que aqueles que regem uma rede estática, mas se os picos correspondem ao ritmo das festas estudantis, isso serve para que mais?

Quando a arqueologia processual tentou fazer a mesma coisa, ou seja estabelecer formulas que permitiriam interpretar com todo rigor os traços encontrados nos sítios, falou-se em leis de Mickey Mouse:

“O tamanho da aldéia San é diretamente proporcional ao número de casas que o compõem.”

Do seu lado, as pinturas rupestres propõem uma rede que deve ser entendida dentro da realidade da pré-história. Estamos muito longe de poder observar, dia após dia (ou até milênio após milênio), as modificações e comportamentos novos que mudaram o equilíbrio da rede. Contudo, sabemos que grupos humanos utilizaram sucesivamente a mesma interface para comunicar, acrescentando um após o outro cada uma das pinturas que encontramos hoje.

O exemplo o mais próximo que me venha na mente, é aquele do catálogo de uma biblioteca. A medida que adquire novos livros, a sua coleção cresce em diversas direções: por exemplo, pode comprar mais livros de filosofia que de botânica. Se ela não joga fora nem perde nenhum livro, e se ninguém vem robar, o seu catálogo estará em constante expansão.

Mas o que acontece se um empregado, vítima de licenciamento indévido, decide de se vingar apagando a data de publicação de cada um dos livros que compõem o catálogo? Ainda poderemos entender a forma com a qual a biblioteca se constituiu desde a sua criação? É nesta situação que nós encontramos com a arte rupestre: um imenso catálogo de pinturas cuja data de criação não possuimos.

Então, o que temos?

Caderno 06/11/2009

Características

A teoria das redes pode ser definida do segundo modo: é o estudo da estrutura de uma coleção de nós e de links que representam algo real, e do comportamento dinâmico da agregação destes nós e links. Para o estudo da arte rupestre pré-histórica, ela estudará a estrutura das figuras e das influencias que exercem umas sobre as outras. Estudará, sobretudo, como as figuras se juntaram no painel, e como elas se influenciaram. Seguem algumas características gerais das redes, que podem ser aplicadas à pintura rupestre:

Estrutura: redes não são coleções aleatórias de nós e relações. Do mesmo modo, as pinturas rupestres não são feitas em qualquer ponto da paisagem. Não são pintadas em pedras soltas, aqui ou ali. São concentradas em locais definidos, e podem até organiza-se em volta de figuras centrais. Portanto, não são feitas aleatoriamente.

Surgimento: a rede é dita em surgimento quando ela passa a favorecer algumas propriedades (tipológicas, geográficas, artísticas…) ao estabilizá-se. No caso das pinturas rupestres, conhecemos apenas o estado estabilizado: salvo em casos de pichação, os painéis não crescem mais. A teoria das redes avança a idéia de que as características comuns entre as figuras surgiram, e se refinaram com o passar do tempo.

Dinamismo: resultado lógico da idéia de surgimento, uma série de etapas evolutivas leva até o ponto final, ou fixo, do sistema. Os painéis pré-históricos foram elaborados aos poucos, ao longo dos milênios, sendo assim tipicamente dinâmicos.

Autonomia: uma rede se forma pela ação autônoma e espontânea de nós independentes, que se relacionam sem intervenção de um controle central ou de uma planificação centralizada. Assim, durante todo o tempo de elaboração dos painéis, tais como nos os conhecemos hoje, diferentes grupos humanos (autônomos) se sucederam para pintar as paredes. Não houve planificação.

Evolução de baixo para cima: sendo constituídas por nós independentes, as redes crescem de baixo (nível local) para a cima (nível global). Do mesmo modo, os painéis são elaborados camada após camada. As relações se tornam cada vez mais complexas, segundo uma lógica que é criada a cada nova pintura.

Topologia: a arquitetura de uma rede é uma propriedade que aparece com o tempo, em conseqüência do comportamento autônomo dos seus nós. A arquitetura dos painéis depende da passagem dos grupos humanos em frente às pedras, e das afinidades deles com as figuras já existentes, e com o local.

Poder: o poder de um nó é proporcional ao seu grau (número de relações que tem com o resto da rede), a sua influencia (valor das relações) e a proximidade. As figuras rupestres centrais são aquelas que atraem o maior número de figuras na sua volta, seja na influência gráfica ou na posição. Elas também têm as maiores chances de atrair novas figuras.

Estabilidade: é atingida quando o ritmo das mudanças entre seus nós ou na sua arquitetura geral diminui com o passar do tempo, ou limite-se em oscilações definidas. Tal característica é indeterminável para os painéis rupestres. Sem datação, não podemos afirmar que não houve um acréscimo muito importante de figuras logo antes do final da utilização do local.

Caderno 08/08/2009

Hipotese

As pinturas realizadas pelos homens pré-históricos nas rochas do Nordeste estão raramente encontradas isoladamente. Ao contrário, formam geralmente conjuntos compostos por estilos e influências diversas. Pinturas figurativas estão colocadas lado a lado com símbolos abstratos, e acabam por criar verdadeiros painéis.

Naturalmente, cada figura é única. Cada cena testemunha um autor, ou grupo de autores. Mas a partir do momento em que estes escolheram de reproduzir as suas figuras em comum, em um ou mais painéis, não podemos mais negar a intencionalidade. Todas as figuras que compõem os painéis estão claramente colocadas em relação umas com as outras : elas formam uma rede.

Logo, é preciso esclarecer a idéia, já que nenhum painel jamais foi realizado em uma só vez. Trata-se então de uma rede que se construiu lentamente ao longo do tempo, e na qual a vontade de estabelecer uma rede nunca parou de crescer. Neste sentido, o primeiro pintor talvez nunca teve a intenção de ver outras pinturas bordar a sua obra. O último, por sua parte, certamente não teve vontade de isolar o seu trabalho. Entre estes dois, encontramos milhares de autores anonimos que, provavalmente, todos consideram a hipotese de compor uma rede (embora talvez não tenham imaginado o conceito).

De fato, a hipotese de uma rede já está subentendida quando a pintura rupestre é estudada, não como uma simples expressão artística, e sim do ponto de vista dos meios de comunicação. Assim, várias pessoas usaram os painéis para estabelecer relações (com que/quem não importa por enquanto). Diferentemente do que se escreve nos muros do Facebook e do Orkut, as pinturas rupestres foramfeitas para ficar, podendo também atingir gerações sucessivas.

Do mesmo modo que uma rede informática, a rede puestre é composta de nós, que estabelecem conexões entre si. Nem o tipo de conexão nem o seu conteúdo estão pré-determinados. Podem ser diferentes entre cada nó, ou até entre cada conexão saindo de cada nó. Por exemplo, uma figura pode ter um tema próprio, mas usar o tamanho de uma outra, e a textura de uma terceira.

Consequência imediata, no lugar de uma rede onde uma figura ocupa um papel cetral (uma figura-mãe, da qual as outras descem), temos uma rede de malha aberta. Não encontramos hierarquia linear, na medida em que todas as figuras pintadas continuam a influenciar a novas ocorrências, mesmo depois de já ter sido utilizadas.

A existência de uma rede não resolve o problema da datação. No melhor dos casos, quando todas as conexões estão identificadas, ela estabelece apenas um desenho interno, relativo. Precisa de um elemento externo para situar o conjunto no tempo e no espaço. Tal elemento pode ser uma referência naturalística, ou algo aparecendo também em outro sítio com datação mais segura.

Portanto, a identificação de uma rede ligando as pinturas rupestres não tem como objetivo de estabelecer um contexto linear de composição dos painéis, e sim de esclarecer a circularidade e a interdependência dos grafismos pré-históricos. Uma interdependência que cresceu com o tempo, junto com o número de figuras. Basicamente, fazer a cartografia da rede não se revela ser um trabalho muito diferente daquele que os arqueólogos já realizam : é preciso estudar meticulosamente cada figura, classificar as suas características e, sobretudo, criar bases de dados amplas.

Caderno 31/05/2009

Parâmetros

  1. Os sítios rupestres pré-históricos formam uma rede.
  2. Cada painel de cada sítio constitui uma sub-rede.
  3. Cada figura de cada painel constitui um .
  4. O princípio de preferential attachment se aplica às relações entre os nós da rede.