Comunicação?

Analisamos os motivos rupestres enquanto formas de comunicação social. A abordagem não tem a pretensão de ser aplicada ao corpus inteiro de grafismos rupestres. Do ponto de vista teórico, a transmissão de informações entre indivíduos ou grupos de indivíduos é apresentada como uma estratégia de sobrevivência muito eficiente. Os primatólogos apresentam o conceito de “libertação da proximidade” como uma das marcas distintivas da humanidade.

Apes and monkeys depend on face-to-face contact to forge and affirm the social bonds that structure their networks of allies. What a primate cannot see, hear or smell does not concern them. Dispersal, driven by the fission and fusion of primate groups as they look for food, often diminishes rather than enhances social networks. By contrast, humans regularly create alliances between people who have never met or who encounter each other infrequently. Hence the importance of proximity for social life is released. Social relationships are uncoupled from spatial proximity through the mediation of culture and language (Gamble 2007: 211).

A extensão das formas de relacionamento além dos limites da visão direta representa, portanto, um elemento fundamental para entendermos a complexificação de uma sociedade, desde as interações entre grupos familiares até nas coletividades mais numerosas. Neste aspecto, as diversas formas de comunicação, seja a linguagem ou a escrita, podem ser consideradas como soluções para contornar o problema do tempo e da distância: os calculi encontrados em cidades da Mesopotâmia, por exemplo, facilitavam a contabilidade e as trocas entre locais distantes, possivelmente desde 8000 BCE (ver Schmandt-Besserat 1992). Por outro lado, a manutenção e o desenvolvimento de amplas redes sociais, com relações de cooperação e de reciprocidade, é reconhecido em populações de caçadores-coletores.

The evolutionary relevance of social networks is also suggested by their role in cooperation. Evolutionary theories of cooperation rely on explicit or implicit assumptions regarding social structure. Direct reciprocity assumes that the same individuals will encounter each other repeatedly. Similar conclusions have been reached regarding indirect reciprociy. Other theoretical models of kin selection, generalized assortativity, group competition ands social networks have also explicitly recognized the importance of population structure, showing that cooperation can evolve if individuals tend to interact with others of the same type (cooperators with cooperators and defectors with defectors) (Apicella & al. 2012: 497).

Se os aspectos teóricos da importância da comunicação nas sociedades humanas não surpreendem, a relação entre ela e os vestígios arqueológicos, de natureza exclusivamente material, pode deixar dúvidas. No entanto, a partir do momento em que, liberada da proximidade, toda transmissão de informação passa necessariamente por objetos materiais, pesquisar vestígios de comunicação entre indivíduos nos artefatos é um tema legítimo para a arqueologia (ver, por exemplo, Wobst 1977; Wiessner 1983; Schortman 1989; Schortman & Urban 2004; Knappett 2011).

A questão, portanto, concerne a possibilidade de encontrar estes traços em determinado corpus de vestígios arqueológicos, a saber, os grafismos rupestres da região Nordeste do Brasil.

A. O primeiro componente concerne a relação entre comunicação e grafismos rupestres.

De l’union recherchée entre les images et les supports naturels à la construction symbolique des dispositifs pariétaux à partir des liaisons entre représentations, l’art paléolithique, et plus généralement préhistorique, présente les caractères graphiques fondamentaux ainsi que les structures spatiales essentielles de systèmes de représentations, dont participent les écritures. Les modes d’expression pariétale préhistorique se fondent sur la communication et sa codification par les choix thématiques et leurs relations spatiales. (Vialou :81).

Escolhas temáticas e relações espaciais implicam diretamente uma forma de comunicação, senão indicam, pela sua recorrência, a necessária preexistência um sistema de transmissão de informações. Neste caso, a repetição de diversos temas é bem atestada em diversas regiões, e as associações binárias propostas por Laming-Emperaire e Leroi-Gourhan mostram também um exemplo de organização do espaço.

Vista como meio de comunicação, a expressão gráfica permite a transmissão de informações para vários grupos de receptores (diferenciados internamente por idade, gênero, status; ou definidos por outros critérios de distinção como grupos aliados, seres humanos, seres sobrenaturais etc). […] A arte rupestre refere-se a uma intervenção voluntária e definitiva nos abrigos, com potencial para atender a diferentes finalidades. Quaisquer que tenham sido elas, seu atendimento deu-se também por meio da comunicação que a materialidade dos sítios gravados ou pintados engendrava, isto é, por meio dos significados sociais, funcionais e simbólicos que eles ajudavam a criar (Ribeiro 2008: 57).

Se temas e disposições iguais são repetidos em contextos arqueológicos diferentes, podemos inferir com bastante segurança que há uma relação entre eles. Logo, outros aspectos podem ser investigados, como a distribuição regional ou a relação com outros tipos de vestígios, para verificar a profundidade do sistema de transmissão de informações.

B. O segundo componente trata da região Nordeste do Brasil.

De fato, a análise dos motivos rupestres enquanto formas de comunicação social é apenas uma abordagem entre as demais. Torna-se necessário justificar a sua validade para este corpus de dados em particular.

Diversos elementos indicam a alta probabilidade da arte rupestre desta região ter relações particulares com os sistemas de comunicação utilizados pelas populações pré-históricas. Primeiro, ao contrário da situação encontrada na Europa, os grafismos rupestres foram geralmente realizados em ambientes abertos. Abrigos sobre rochas, paredões ou dolinas são as configurações as mais comuns, embora alguns casos de cavernas são também conhecidos – inclusive no Estado da Bahia. Permitem um fácil acesso a diversos grupos, desde os autores original das pinturas até visitantes ocasionais e, como é o caso hoje, turistas e pichadores.

Segundo, foi encontrado e classificado pelos arqueólogos da Missão Francesa no Piauí, ainda na década de 1970, um importante conjunto de representações figurativas. Para este tipo de grafismo, a pesquisa é capaz de identificar as cenas, as posições, os seres envolvidos (humanos e animais). Ao contrário, quando se trata de motivos geométricos ou abstratos, a totalidade do código se perdeu – deixando apenas o jogo das cores, das formas, e da disposição espacial.

Enfim, as pesquisas realizadas em diversas regiões do Nordeste identificaram uma categoria específica de cenas figurativas, caracterizadas como emblemáticas. As suas características são a repetição, em lugares distantes, de “grafismos representando cenas cerimoniais ou mitos cujo significado nos escapa” (Martin 2007: 246). Indicam uma forma de comunicação entre indivíduos distantes.

Esta base contextual serviu, até hoje, para concluir em relações verticais entre as diversas regiões onde estas manifestações gráficas foram identificadas. Os processos dinâmicos os relacionando foram definidos em termos de difusão e de diáspora (Martin & Guidon 2010).

O tema dos grafismos rupestres do Nordeste do Brasil enquanto sinais de comunicação e de transmissão da informação constitui uma hipótese de trabalho consistente, tanto na teoria arqueológica quanto na prática da pesquisa regional. As análises morfológicas não tem o propósito de formular uma cronologia para este tipo de manifestações, nem de situá-las no tempo. É utilizada, primeiramente, para investigar o tipo de processos e de relações que existiam entre diversos grupos humanos.

Cartografia colonial do São Francisco 2

No post anterior sobre a cartografia colonial do Rio São Francisco, os mapas utilizados não mostravam muita coisa do interior das terras, sendo basicamente limitadas ao litoral. As informações encontradas remontavam, no melhor dos casos, algumas dezenas de milhas marinas, e a partir da atual cachoeira de Paulo Alfonso, todos ficavam confusas.

O mapa desenhado por Louis Stanislas d’Arcy de la Rochette e publicado por William Faden em 1807 mostra uma outra realidade. Destinado a fazer parte de um atlas mundial e baseado em relatos oficiais, a América do Sul é representada em oito folhas. A quarta folha representa boa parte do Brasil, do Mato Grosso para o leste, e do Ceará até o Espírito Santo.

William Faden, Londres, 1807 (ver original)

« Colombia Prima / or / South America / In which it has been attempted to delineate the Extent of our Knowledge of that Continent / Extracted chiefly / from the original manuscript maps of / His Excellency the Late Chevalier Pinto / likewise from those of João Joaquim da Rocha, João da Costa Ferreira / El Padre Francisco Manuel Sobrevida / and from the most authentic edited account of those countries / Digested and constructed / by the late eminent and learned geographer / Louis Stanislas d’Arcy de la Rochette / London / Published by William Faden / Geographer to His Majesty and to His Royal Highness the Prince of Wales, June 4th 1807. » Colombia Prima ou América do Sul, na qual foi tentado delimitar o nosso conhecimento deste continente. Extraído principalmente dos mapas manuscritos originais da Sua Excelência o falecido Cavaleiro Pinto, bem como dos mapas de João Joaquim da Rocha, João da Costa Ferreira, El Padre Francisco Manuel Sobrevida, e dos mais autênticos relatos publicados sobre estes países. Reunido e elaborado por o falecido eminente e culto geógrafo Louis Stanislas d’Arcy de la Rochette. Londres. Publicado por William Faden, geógrafo de Sua Majestade e de sua Real Alteza o Príncipe de Gales, 4 de Junho de 1807.

Uma nota de advertência segue com mais referências para os mapas e as fontes que foram utilizadas na elaboração do mapa, redigida por William Faden. Os principais foram possivelmente fornecidos por Luis Pinto de Sousa Coutinho, Visconde de Balsemão, que foi governador da capitania de Mato Grosso entre 1769 e 1772. Está mencionado numa missão diplomática em Londres em 22 de dezembro de 1792 (Dantas da Cruz 2008: 26). João Joaquim da Rocha foi engenheiro militar e serviu em Minas Gerais. São conhecidos diversos mapas, datando entre 1777 e 1798. Trabalhou para o então Governador da Capitania, Rodrigo de Sousa Coutinho – provavelmente parente do primeiro (Furtado 2010). João da Costa Ferreira, outro engenheiro militar, trabalhou na capitania de São Paulo, onde morreu em 1822. O Padre Francisco Manuel Sobrevida, por outro lado, foi utilizado para as partes referentes ao Peru.

William Faden, Londres, 1807 (ver original)

Existem relações, contudo, entre o trabalho de Guillaume de l’Isle, um século antes, e este mapa. Algumas pequenas descrições, ou partes delas, podem ter sido importadas:

« Obacatiaras / a Small Nation of Hunters & Fishermen / who dwell chiefly / in the Islands of R. S. Francisco » (Faden 1807) e « Obacatiares / habitans dans les / Isles et aux environs / de la R. St. Francois » (De L’Isle 1703)
« Mariquites / a Ferocious Wandering Nation of Cannibals » (Faden 1807) e « Mariquites / peuples / errans » (De L’Isle 1703)

No entanto, De La Rochette e Faden oferecem uma quantidade enorme de detalhes concernente o interior, que De L’Isle, na sua época, provavelmente não tinha a disposição. Com as informações das Minas Geraes [sic], o curso do Rio São Francisco é muito detalhado da Serra da Canastra até a Villa do Urubu. Mais ao nordeste, apesar dos largos espaços vazios, foram incrementadas novas informações.

A atual Serra do Espinhaço, incluindo a sua parte baiana, a Chapada Diamantina, recebe os nomes de Serra de Mangaveira (a palavra Chappada aparece num mapa de 1828, desenhado por Sidney Hall – hoje, a Serra da Mangabeira está limitada ao noroeste, a partir de Seabra). Mais ao norte, continua como Serra do Salitre, na bacia do rio que hoje tem o mesmo nome. Ao redor, estão indicadas a Serra da Lapa, a Serra de Tabatinga, a Serra de Piauhi e a Serra do Aracau ou dos Aracuyas.

Nesta região, diversos afluentes do São Francisco estão mencionados: Rio das Correntes, Rio Para-merim, Rio Grande, Rio Preto, Rio do Pilão Arcado e Rio Verde. Cidades tem nomes antigos ou grafias alteradas: desde a Villa do Urubu (Paratinga), encontra-se a Villa do Rio Grande (Barra), Santoce (Sento Sé), Villa da Jacobina (Jacobina), Passaje, Frexas, João Carneiro, Campo Largo e Joazeiro (Juazeiro), João Ribeiro e Saldenha.

Três missões, fundadas pelos capuchinos franceses no século XVII, são também mencionadas, duas delas em ilhotes: Missam do Salitre, Missam do Rey Matracia e Missam do Aracapa.

William Faden, Londres, 1807 (ver original)

Interesse também notar que os Tapuyas, antigamente inseridos na região logo ao norte do São Francisco, foram recuados mais para o norte, na Capitania do Piaui, cujo nome eles portam:

« Piauhis / called in the maps Ta-puyas / whose language / divided in many dialects / is the most common in Brasil » Piauhis, chamados de Ta-puyas nos mapas, cuja língua, dividia em numerosos dialetos, é a mais comum do Brasil.

No seu lugar, aparecem os Aracuyas, do outro lado da Serra do mesmo nome.

« Aracuyas / a Numerous Nation very little Known / they live chiefly on Tigers Flesh and are remarkable / for the Ornaments which hang from their / Ears, their Lips and their Pudenda » Aracuyas, uma nação numerosa pouco conhecida. Eles vivem basicamente de carne de onça e são remarcáveis pelos ornamentos que penduram em seus ouvidos, lábios e partes íntimas.

A informação foi visivelmente tirada da obra do Padre Giandomenico Coleti, Dizionario Storico Geografico dell’America Meridionale, publicado em Veneza, em 1771, e que menciona também a carne de tigre [sic].

« Aracuyes (Aracuites, Aracuntii) N.B. poco conosciuta nel Brasile nelle selve a Ponente di Pernambuco. Solamente si sa, ch’ è numerosa, vagabonda, e che si pasce con especial gusto della carne delle tigri . Vanno tutti nudi, e dalle orecchie, dalle labbra, e dal prepuzio portano pendenti alcune tavolette di figura ovale per aggiunger bellezza , e grazia. Si dipingono tutto il corpo di rosso e giallo , e nella tetta, nelle braccia, e nelle gambe portano legate le penile degli uccelli di più colori . Le loro armi sono le frecci, e le macane, cioè grosse mazze di pesantissimo legno. » Aracuyes (Aracuites, Aracuntii) Nação bárbara pouco conhecida do Brasil, que habita ao oeste de Pernambuco. Apenas se sabe que é numerosa, vagabunda, e que se alimenta com um gosto especial da carne de onça. Vão inteiramente nudos, e nos seus ouvidos, lábios e prepúcio, portam pendentivos de forma oval para aumentar a beleza e a graça. Eles pintam o corpo inteiro com vermelho e amarelo, e no peito, nos braços e nas pernas portam as penas dos pássaros os mais coloridos. Suas armas são as flechas e a macana, que é uma maça de madeira pesada.

O nome do Padre Giandomenico Coleti está escrito no próprio mapa de Faden, do lado da Serra do Piauhi, com a simbologia de um lago e a menção “According to Padre Coleti”. Um outro mapa, publicado em 1816 por Brue, complementa dizendo “Lac selon le Padre Coleti”. No entanto, não parece que haja referência a um lago nesta área no livro do Italiano, e pode ser um exemplo de localização.

Enfim, existe a menção de duas estradas indígenas. A primeira, chamada “Indian Road followed by the Traders” liga Oeiras a Saldenha, no Rio São Francisco. A segunda, “Indians and Traders Road”, vai de Saldenha em direção à Vila de Ico, na Capitania do Seara. Enfim, um terceiro trecho aparece, a pouca distância de Saldenha, na altura do Rio Verde, partindo para o leste, com a nota “Indian Road to Pernambuco which has been followed by some Missionaries.” É provável que estes missionários sejam jesuítas ou padres capuchinos, como Martin e Bernard de Nantes, que permaneceram durante anos nas Missões do São Francisco. Bernard, por exemplo, escreveu uma Catequese em Língua Kariri, publicado em Lisboa em 1709. Na sua Relation succinte et sincère, Martin declarava:

« Je ne soumets pas à Votre Grandeur une description exacte du fleuve de Saint-François, ni des Indiens qui habitent sur ces rivages: le Père François de Lucé en a fait une fort exacte. » Eu não submito à sua Grandeza uma descrição exata do rio de São Francisco, nem dos Índios que moram nestas margens: o Padre François de Lucé fez uma muito exata.

A Relação de François de Luce, infelizmente, não parece ter sobrevivido até hoje. Que pena.

Cartografia colonial do São Francisco

A cartografia colonial do Rio São Francisco mostra diversas configurações fluviais, que evoluem no tempo. Estão ligadas à evolução do conhecimento do território e, sobretudo, do interior das terras, que era sempre dependente de novas expedições (armadas ou não).

Uma particularidade está registrada num mapa inglês datando de 1747, em plena guerra de sucessão austríaca (uma história assombrosa de herança com dimensões continentais, como os Habsburgos gostavam). “A very new and accurate map of Brasil” foi realizada por Emanuel Bowen (1714-1769), cartógrafo real de Jorge II, a partir de cartas e mapas muito conceituadas e de observações astronómicas. Aparecem dois rios principais nesta região do Nordeste: o Rio Real e o Rio São Francisco. Perto de um pacote de três ilhas, o curso do São Francisco parece interrompido, com a indicação de que “Here the River St. Francis runs underground“, o que quer dizer “Aqui o Rio São Francisco corre de baixo do solo”.

Emanuel Bowen, 1747 (ver original) Pierre van der Aa, 1729 (ver original)

A informação parece hoje enorme. O maior rio da região passando de baixo da terra? A possibilidade de informações falaciosas contida nos mapas da época é melhor exemplificada por um texto impresso em baixo do mesmo mapa:

“We have purposely omitted Inserting the imaginary Island of Ascension, upon the Authority of the late very ingenious and learned Dr. Halley, who affirms, that tho Mr. Frezier, following the Old Dutch Maps, has Inserted it; yet, in reality, there is no such Island. Notwithstanding this, all or most of the French Maps and Charts have placed it in Lat. 20′ 30″ South, and about 31′ West from Paris; and our English Maps and Charts, have generally Copied the same Error; either as prefering Monsr. Freziers account, or not knowing Dr. Halley’s reason for omitting of it in his general Chart of the World.” Omitimos propositalmente de inserir a imaginária Ilha da Ascenção, com base na autoridade do muito ingenioso e sabido Dr. Halley, que afirme que, embora Mr. Frezier, a partir dos Antigos Mapas Holandeses, a tenha inserida, na realidade, não existe. Apesar disso, todas ou a maioria dos Mapas e Chartas Franceses a colocaram em 20′ 30″ de latitude sul e cerca de 31′ no oeste de Paris; e os nossos Mapas e Cartas Ingleses geralmente copiaram o mesmo erro; seja porque preferiram a opinião de Monsr. Frezier ou desconhecendo as razões do Dr. Halley em tirá-la da sua grande Carta do Mundo.

A ironia deste trecho quer que a Ilha existe verdadeiramente: foi descoberta em 1501 por João da Nova e tomada pelos próprios Ingleses em 1815 (hoje é quase exclusivamente uma base militar). O trecho informa, contudo, da existência de outros mapas nos quais este foi baseado. Encontramos um mapa de Pierre van der Aa, datando de 1729 e chamada “Le Brésil suivant les Observations de Messieurs de l’Académie Royale des Sciences, etc. Augmentée de Nouveau.” La même information est présence: “Icy la Rivière St. François se perd sous terre” (Aqui o Rio São Francisco se perde de baixo da terra). Algumas décadas antes, em 1703, Guillaume de l’Isle publicou um “Carte de la terre ferme du Pérou et du Pays des Amazones.” Le sous-titre est plus intéressant, puisqu’il indique les sources qui ont servi à son élaboration: “Dressée sur des Descriptions de Herrera, de Laet, et des PP d’Acuña, et M. Rodriguéz, et sur plusieurs Relations et Observations postérieures” (Elaborada a partir das descrições de Herrera, de Laet, das PP d’Acuña e de M. Rodriguéz, e de diversas Relações e Observações posteriores). Apresenta a mesma frase que a versão de 1729, com as mesmas três ilhas. Existem ainda versões em latim e em espanhol, sempre baseadas no mesmo molde, o que denota a importância relativa desta matriz para o conhecimento da época.

Guillaume de l’Isle, 1703 (ver original)

A informação fica ainda mais estranha se comparada com os mapas anteriores. Nestes, existe a teoria de um grande lago interior (Eupana), ou de vários lagos menores no curso do próprio São Francisco:

Hendrik Hondius, 1630 (ver original) Jan Jansson, 1635 (ver o original

O termo “Old Dutch Maps” presente na versão inglesa de 1747, e a menção de Johan de Laet neste mapa francês, podem indicar que a informação sobre a passagem subterranea do Rio São Francisco tenha vindo deste autor. A presença dos Holandeses no Nordeste, sobretudo entre 1624 e 1658, com a publicação pelo mesmo Johan de Laet de várias obras científicas (entre elas, a magnífica Historia Naturalis Brasiliae), constitui um forte indício de que seja ele uma das principais fontes de informação. No seu “Nieuwe Wereldt ofte Besschrijvinge van West-Indien”, publicado em 1625 (um ano após a breve tomada de Salvador por Jacob Willekens, nas contas da Geoctroyeerd West Indische Compagnie, da qual De Laet era acionista), ele descreve a faixa litoranea do Brasil. Nas páginas 426 e 431, faz algumas menções ao Rio São Francisco, com indicações marítimas, sobretudo.

“Tusschen deze Capitania ende de Bahia zijn twee machtighe rievieren: die van Sant Francisco legghende op de hooghte van thien graden ende een half / welck met zulcken ghewelt in Zee loopt / dat men zeghe dat zy haer water behout op de twintich mijlen in Zee.” Entre essa Capitania e a da Bahia se encontram dois rios podereosos: o do São Francisco vem na altura de 10 graus e meia / e se joga no mar / dizem que as suas águas chegam até 20 milias dentro do mar (426);
“Van Rio Reyal tot de rieviere Rio de San Francisco zijn zeventhien leguas, ende het landt kreckt Noort-oost ende Zuidt-west / ende leght op de elf graden. Herrera zeght (als op de recht voor-gaende plaetse is aengheroert) dat zy leght op de hooghte van thien graden ende een half.” Do Rio Real até o Rio São Francisco são dezessete leguas, e a terra se orienta de nordeste para sudoeste / e se encontra à 11 graus. Herrera disse (seguindo ele a partir deste ponto adiante) que está em 10 graus e meia (431);
“[…] ende voor Rio St. Francisco steeckt een hoeck leegh landt voor uyt; ende de rieviere gheeft versch-water. Van de Rio St. Francisco tot het punt Gurra, hebt ghy vijfthien leguas, ende het lant streckt Noort-noort-oost ende Zuydt-zuydt-west / leght op thien graden ende twintich minute. “ […] O Rio São Francisco faz uma curva antes de entrar no mar; e o rio tem água doce. Do Rio São Francisco até a ponta Gurra, há quinze leguas e a costa está orientada de norte-nordeste para sul-sudoeste / se encontra à 10 graus e 20 minutos (431).

Constam apenas informações sobre o local onde o rio desemboca no mar. Não há nada sobre a sua configuração anterior. Na edição de 1648 da Historia Naturalis Brasiliae, redigida por Marcgrave e Piso e organizada por De Laet, há uma breve descrição do Rio São Francisco.

“Caetera Indigenarum & Lusitanorum fide ita se habere dicuntur, circiter quinquaginta milliaribus à mari, ipsum de altissimis rupibus seu cataractis, Cacoeras vocant, praeceps ruere, itaque altius ab iis qui è mari veniunt ascendi non posse.” Outros Indígenas e Portugueses afirmam que a cerca de 50 milhas do mar, há cataractas muito altas, que eles chamam de cacoeras, e que são altas de mais para ser passadas vindo do mar (263);
“Supra cataractas fluminis alveum porro pergere versus Corum ad aliquod milliaria, dein ingentem lacum sequi, in quo multae insulae amaenissimae sint sparsae, quae à barbaris habitantur, uti & ora universi Lacus.” Além das cataractas, o rio corre em direção ao noroeste por algumas milhas. La, tem um lago, no qual há muitas ilhas dispersas, muito agradáveis. As ilhas e as costas do lago são habitadas por bárbaros (263).

No livro “De nieuwe en onbekende weereld, of, Beschryving van America en ‘t zuid-land”, publicado por Jacob van Meurs e Arnoldus Montanus em 1671, há uma discussão similar sobre as origens do rio (e da maioria dos rios brasileiros):

“d’Hollanders, die voor eenige tijd de stroom opvoeren tot veertig mijl, vonden de zelve allenthalven wijd en diep, vol eilandekens en rotzen. De Portugeesen, tien mijlen hooger gevaeren, ontdekten de yzelijkeklippen Cacoeras, van welke steil neder stort: boven de Cacoeras, strekt zich de stroom na ‘t noord-westen. Os Holandeses, que por um tempo percorreram o rio até quarenta milhas, sempre o encontraram largo e profundo, cheio de ilhéus e rochas. Os Portugueses, que foram dez milhas mais longe, descobriram as falésias da Cacoera, que cai para baixo: depois da Cacoera, o rio se dirige para o noroeste.

Ausentes dos primeiros, a cachoeira e as ilhas aparecem finalmente no mapa de Guillaume de l’Isle em 1703, e nos outros subsequentes. Os habitantes são chamados Obicatiares, “habitans dans les Isles et aux environs de la R. St. Francois”. Neste caso particular, é possível localizar a fonte que serviu à inclusão destes detalhes nos mapas a partir de Guillaume de l’Isle. Os cartógrafos copiavam regularmente as informações contidas em outras edições contemporâneas, e o acréscimo de novos dados é sempre notável – inclusive em relação às discussões que produzem (cfr. a nota de Bowen sobre a Ilha da Ascenção). A fonte que serviu para a inclusão de um trecho subterrâneo do São Francisco, porém, permanece desconhecida – é bem possível que tenha sido perdida. Pode ser um relato de um viajante (Louis Éconches Feuillée e Amédée François Frézier, citado por Bowen, são bons exemplos) ou informações da WIC.

Caderno 22/05/2009

Ventura

Os sítios são chamados Toca do Pepino e Toca da Figura. Ambos apareceram em baixo da linha rochosa que domina o vale. Dos dois lados do rio, as margens se elevam numa centena de metros até chegar nos primeiros afloramentos, as serras cor de rosa típicas dos arenitos. Com a erosão, alguns estratos desabaram, formando abrigos naturais que podem alcançar quarenta ou cinqüenta metros quadrados cada.

Hoje, mesmo com a passagem dos garimpeiros, as paredes ainda estão cheias de pinturas. Vermelhas, amarelas e brancas, as vezes apagadas ou danificadas. Foram pintadas em uma época remota, sem que possamos determinar exatamente a sua idade. As técnicas clássicas de datação, o Carbono 14 e a termoluminação, não funcionam. As técnicas experimentais de arqueomagnetismo estão mal adaptadas para as pequenas quantidades de pigmentos minerais presentes nas pinturas, e a oxidação química do plasma ainda está em desenvolvimento. Eis toda a fraqueza da pré-história brasileira: as referências temporais estão extremamente pobres.

Os motivos, ao contrário, formam um testemunho impressionante sobre as sociedades que os fizeram: estilisticamente, estas pinturas relevam da Tradição Nordeste, identificada no sítio da Pedra Furada, do outro lado do Rio São Francisco. É a tradição a mais antiga, datada entre 10.000 e 6.000 antes do Presente. Os estilos gráficos posteriores; chamados Agreste e São Francisco (ou Geométrica), não alcançam o nível de detalhes e de fineza da Tradição Nordeste, e as figuras se tornam hieráticas, individuais, e cada vez mais abstratas.

4.000 anos constituem um período grande de mais, sobretudo quando as cenas pintadas representam tecnologias atribuídas, na Europa e na Ásia, à Revolução Neolítica (domesticação, agricultura, aldeias). Na frente destas fontes, a interpretação estilística não é mais suficiente.

Os resíduos de carvão vegetal descobertos nos dois sítios permitirão de obter uma estimativa da ocupação humana. Ainda será preciso decidir se as pinturas estão associadas, e de todos os painéis, quais delas. É um trabalho de formiga, sem dispor de um meio seguro de medir a sua profundidade.