Notícia viral em Morro do Chapéu

Não é todos os dias que uma notícia arqueológica se torna viral em poucos dias. Foi o que aconteceu nos últimos dias com a denúncia da destruição de um sítio de pinturas rupestres. Viral é uma palavra forte para uma arqueologia baiana, que deve conter umas poucas dezenas de pessoas ativas no máximo. Na sua escala, contudo, foi o que aconteceu. Por esta razão, é importante tentarmos entender o que sucedeu.

Em 30 de dezembro de 2014, aparece uma notícia no Facebook, com 6 fotos de pinturas rupestre e a seguinte descrição:

CRIME AMBIENTAL: Uma empresa que explorou quartzito na Serra da Gurgalha, município de Morro do Chapéu danificou um dos Sítios Rupestres mais importantes da Sub-bacia do rio Salitre na Bacia do São Francisco. Pelo material que me foi enviado para dar entrada no MP, a exploração foi completamente clandestina sem as devidas licenças ambientais, talvez nem com o Programa de Recuperação de Área Degradada – PRAD, possa recuperar a história do homem no planeta a partir deste Sítio.

No mesmo dia, a notícia é vinculada em dois jornais online: Morro Notícias e Jacobina Notícia.

Uma semana depois, em 6 de janeiro de 2015, um artigo é publicado pelo Bahia Notícia. Não parece mais disponível no site, mas ainda está no cache do Google. O dia seguinte, o mesmo site publica a posição do Iphan.

Ainda no mesmo dia, o site do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco menciona também a notícia, bem como o jornal Chapada Online.

Nas redes sociais, tudo isso se espalhou com uma enorme velocidade a partir deste dia, ultrapassando os limites do Brasil.

A velocidade com a qual a notícia foi transmitida, primeiro localmente, depois no Estado e finalmente internacionalmente, é um feito impressionante. Ele revela canais de comunicação articulados e eficientes, capazes de espalhar em poucos dias a destruição de um sítio arqueológico. Revela na região de Morro do Chapéu um núcleo ativo de pessoas dispostas a agir em defesa do meio ambiente e do patrimônio, com contatos em diversos pontos do aparato público-privado baiano.

Desde o primeiro dia, porém, as fotos não me parecem estranhas. A figura do indivíduo carregando um papagaio no ombro, em particular, não era desconhecida. Mas somente com acesso ao meu computador, em casa, consegui verificar. Conheço o sítio Jacarezinho mencionado nos artigos, o visitei em 19 de março de 2014. E o impacto devastador da mineiradora no local já era claro.

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O guia que me acompanhou nesta ocasião me falou que o empreendimento tinha sido embargado e parado um tempo atrás. De fato, não havia mais atividade no local, apenas o rastro deixado pelas máquinas, que abriram as rochas como se fossem fatias de pão. É importante também ressaltar que o local de pinturas que eu vi, o mesmo repassado nos artigos, não foi diretamente danificado. Esta situado a algumas dezenas de metros e, certamente, teria sido destruído sem o embargo.

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Eu não sei qual é o estado atual do sítio, se o empreendimento foi retomado ilegalmente, se alguém se aproveitou das pedras já destruídas. Mas não me parece claro, pelas fotos vinculadas nos jornais que houve uma grande modificação desde a época em que vi o local. A notícia seria então, felizmente, um hoax.

Atualização 13/01/2015

Houve uma reunião ontem, dia 12 de janeiro, entre o IPHAN e a Secretaria Municipal em Morro do Chapéu para verificar in loco as denúncias.

Atualização 14/01/2015

A visita técnica no local confirmou que não houve depredações maiores que aquelas já registradas desde o primeiro embargo em 2006.

Modelos

Montar um modelo no conforto de uma universidade é uma coisa relativamente simples. Você faz um café, senta tranquilamente na cadeira, liga o computador e as eventuais máquinas, carrega os seus dados e procura todas as observações possíveis a respeito. É bem provável que haja uma tonelada de análises criteriosas que possam ser desenvolvidas. Nem importa quais são os dados brutos, as medidas vão fornecer mais informações ainda: primárias, secundárias, até terciárias. Você ainda pode levantar, dar uma volta, conversar com um colega, e tomar outro café. Sempre há formas de elaborar algum pequeno modelo com isso. A mente humana é assim feita que consegue fornecer uma explicação lógica para qualquer coisa, e a ciência é uma máquina para fornecer explicações lógicas.

O problema não é o caráter lógico de um modelo. Claro que ele tem que apresentar construção, fundamentação, e todos os preceitos necessários à condução de uma boa pesquisa. Considerando um pesquisador lambda, há boa chance que seja o caso. O problema vem do fato que o modelo tem que arcar com as suas próprias consequências. Quer dizer, o seu valor é relacionado à capacidade de validar as conclusões, mas também as conclusões das conclusões. Deve também ser confrontado com dados novos e continuar a funcionar. Um modelo construído a partir da observação de cisnes brancos é perfeitamente lógico enquanto não há registro de cisnes negros. Porém, desde o início, ele é incompleto. Mas a única forma de saber disso é procurar um cisne negro, quer dizer, expandir os dados brutos.

Em arqueologia, fazemos modelos lógicos a partir de dados parciais. É quase uma segunda natureza. Raramente conseguimos escavar um sítio inteiro, uma região toda. Coletamos amostras aqui, amostras acolá, e tentamos preencher os buracos com recursos lógicos. As possibilidades de expansão dos dados brutos são, às vezes, muito reduzidas, ou dependem do acaso. Porém, é no campo que estão as respostas.

O projeto do Inventário de Sítios Arqueológicos no município de Morro do Chapéu é uma oportunidade única de expandir os dados nesta região. E de ver se o modelinho que montamos em laboratório continua válido com as novas informações que podem ser encontradas. Neste primeiro momento, o que procuramos? Antes de tudo, novos sítios. Afinal, eis a função principal do projeto. As informações coletadas com os moradores locais permitem descartar a hipótese segundo a qual os sítios já registrados são os únicos existentes. Mas o município é muito grande, com mais de 5.000 km², e há uma lista enorme de locais a visitar. Alguns são de fácil acesso enquanto outros, bem, são mais complicados. A lista tampouco é exaustiva e, a medida que avançamos, novas indicações vão surgindo.

Não há certeza alguma de encontrar a matéria-prima que nos interessa particularmente, que são representações de indivíduos humanos manipulando objetos. Seria até possível não encontrarmos nenhuma manifestação deste tipo. Os sítios já conhecidos se tornariam então as únicas ocorrências nesta área, e o modelo inicial elaborado no laboratório continuaria correspondendo ao observado em campo, com a informação adicional de que está relativamente isolado no espaço. Seria uma característica importante. Mas é a hipótese contrária, com o registro de novas manifestações, que queremos ver.

E, se possível, algo contrastante, porque é mais engraçado. Um cisne negro pode até destruir o modelo.

Cartografia de Morro do Chapéu

O Sistema de Informação Geográfica (em inglês, GIS) permite sistematizar diversos tipos de dados georreferenciados. O modelo digital de elevação (DEM) do ASTER (Nasa/MTI) serviu de base para a composição dos mapas produzidos aqui. Além disso, informações da CPRM, do MMA e da Embrapa foram coletadas e reunidas com o Quantum GIS 1.8.0 (Lisboa).

Os mapas ilustram o caráter transicional da área de Morro do Chapéu, localizada no limite entre diversas “províncias” ambientais: as bacias do São Francisco e do Paraguaçu, as formações do grupo Chapada Diamantina (Supergrupo Espinhaço) e do grupo Una (Supergrupo São Francisco) e, por fim, entre savana, savana estépica e florestas estacionais.

Apresentação Geral

Hidrografia (Macrobacias)

Hidrografia (Mesobacias)

Hidrografia (Microbacias)

Litologia (Eras Geológicas)

Litologia (Grupo Chapada Diamantina)

Litologia (Afloramentos)

Cobertura Vegetacional