Data Mining 29/07/11

Modelos de co-residência nas sociedades de caçadores-colhedores mostram uma estrutura social humana única

Um modo de vida de caçador-colhedor constituiu provavelmente a estutura social dominante durante a maior parte da história humana. Sustenta-se geralmente que os grupos de caçadores-colhedores consistam sobretudo em indivíduos ligados por parentesco: pais e filhos, crias, incluindo até as relações conjugais. Em um artigo publicado na revista Science em 11 de março de 2011, Hill et al. analizou os graus de parentesco de 32 grupos de caçadores-colhedores em sociedades contemporâneas (no total, 5064 indivíduos, tamanho médio de um grupo 28,8 adultos) e descobriram que estas sociedades ofereciam uma estrutura social diferentes de primatas ou vertebrados. Embora irmãos e irmãs permaneçam regularmente juntos, a maioria dos indivíduos em grupos residentes não têm relações genéticas. Ademais, ambos os sexos povem escolher em deixar o próprio grupo ou ficar, e nem a linha materna nem a linha paterna domina os grupos. Estes modelos produzem grandes redes de adultos sem parentesco e sugera que o valor seletivo inclusivo não pode explicar a extensa cooperação entre os grupos de caçadores-colhedores. No entanto, largas redes sociais podem ajudar a entender por que os humanos desenvolveram capacidades para a aprendizagem social que resultou em uma cultura cumulativa.

HILL, K. R. et al., Co-Residence Patterns in Hunter-Gatherer Societies Show Unique Human Social Structure, in Science, 331, 6022, 11/03/2001, 1286-1289.

Traduzido e adaptado de Complexity and Social Networks Blog

Máscaras 2

O Museu de Arqueologia e Etnologia de Salvador, instalado na primeira faculdade de medicina de Salvador, apresenta uma pequena exposição sobre o ritual indígena do Toré, compartilhado pela maioria das populações indígenas do Nordeste do Brasil.

 

A realização do ritual foi utilizada ao longo do século 20 como marcador étnico para reconhecer o caráter original dos grupos que reinvidicavam a sua origem indígena na região Nordeste. O ritual é dedicado aos Encantados, Índios vivos que se encantaram, e que são particularmente ligados às cachoeiras. Nos Pankararu, as antigas cachoeiras de Itaparica e Paulo Alfonso (hoje transformadas em barragens) eram habitadas pelos primeiros Encantados. Nos Kiriri, no entando, o Toré não era mais realizado, e foi novamente ensinado.

Cada Encantado toma forma com um Praiá, um vestimento ceremonial único. É realizado pela pessoa que recebeu a tarefa de zelar pela guarda do Encantado em sonho, na forma de uma semente. A máscara e a saia estão feitas de fibra de caroá ou de ouricuri, duas plantas nativas do Nordeste. A aparência geral do Praiá leva facilmente até uma série de pinturas realizadas na Toca do Pepino: um corpo se afinando, no qual a cabeça não aparece, salvo no casos onde sobresaia de maneira clara – quando uma máscara é utilizada ou não.

 

Visualmente, a idéia é tentadora. A presença de Índios Maracás na região da Chapada é atestada em 1673 na ocasião da sua derrota em frente aos Portugueses. Pertencentes ao tronco Cariri, estavam então ligados ao povos que moravam nas margens do Rio São Francisco, cujos atuais descendentes são hoje Pankararu, Pankararé, Kiriri, etc. A existência de uma forma de ritual similar ao Toré, ou mais simplesmente de Encantados, é plausível.

Mas, quais são os fundamentos da hipotese da representação de personagens com máscaras? Não são muitos. Mas são numerosas perguntas:

* A definição do Toré como instrumento de identificação étnica é recente. Ela permite realmente de trabalhar este problema em periódos mais remotos, anteriores à chegada dos Portugueses na região?
* A relação entre Encantados (Makhián) e arte rupestre foi estabelecida para os Krenak, entre outros lugares na Serra Takrukkrak (Minas Gerais). Podemos considerar que se trata de um fenômeno mais amplo, que alcança outras étnias?
* A presença ou a ausência de uma máscara, além da saia, tem uma significação precisa que poderia nos ajudar a entender melhor a relação entre as pinturas e os Encantados na região?

Desta forma, os dois limites da etnoarqueologia estão de novo identificadas: do ponto de vista cronológico, é perigoso utilizar conceitos modernos para explicar sociedades do passado (e o fato de elas serem indígenas não importa), enquanto do ponto de vista geográfico, também é perigoso apagar os milhares de quilômetros que separam Krenak e Pankararu, sob o pretexto que era caçadores-colhedores de língua macro-jê.

Máscaras

Na etnoarqueologia, as sociedades indígenas contemporâneas fornecem informações que permitem entender melhor os achados arqueológicos. Eu não gosto muito da idéia, porque transmite o velho princípio colonial segundo o qual estes selvagens nunca evoluiram de verdade desde a idade da pedra. Ou pelo menos, nada que fosse deles mesmo. Não acho que este tipo de perspectiva possa levar alguém a fazer boas perguntas em frente aos problemas da pré-história (ou da vida em geral, mas estou me afastando do assunto).

A permanência material de situações sociais em diversos lugares ou momentos da história não significa que o seu conteúdo seja identico. Por exemplo, o solstício de inverno coincide com a data de nascimento de uma longa lista de divindades, de Bacchus até Jesus, passando por Krishna, embora o conteúdo dos rituais tenha mudado dramaticamente ao longo dos séculos (e ainda há provavelmente hoje pessoas festejando umas bacchanais na moda do século 21). Interpretando as sociedades pré-históricas a partir das sociedades de hoje, tomamos o risco de confundir o sal e o açúcar, e a torta de maçã se torna incomestível.

Mas mesmo assim, às vezes, algumas comparações podem se revelar interessantes. É o caso de um tipo particular de figuras humanas que aparecem no sítio da Toca do Pepino:

 

 

A primeira vista, se trata bem de um ser humano, cujo braços estão colocados de forma peculiar, como se fossem nadadeiras de peixe. O corpo é forte, inteiramente pintado de vermelho, sem que se possa distinguir o pescoço da cabeça. Supomos que estejam a cima dos ombros. É uma forma intriguante de representar o corpo humano, que provavelmente evoluiu para uma nova forma:

 

 

Agora, a cabeça aparece de forma mais clara, como se fosse muito cabeludo. Todas estas pinturas aparecem isoladas, ou em série umas ao lado das outras. E a etnoarqueologia pode oferecer um início de resposta. Em numerosas festas de diversos povos indígenas, podemos ver grandes personagens mascarados dançar no centro da aldéia:

* Kokrit, nos Krahô ;
* Hátori, nos Umutina ;
* Apapaatai, nos Wauja, como nesta foto:

 

 

Como será que isso pode nos ajudar a entender o conjunto da Toca do Pepino? Primeiro, a tipologia das pinturas nos indíca que esse é o segundo mais numeroso tipo de figuras. Tudo o que pode ajudar a entender a sua presença nas rochas se torna então precioso. Naturalmente, mesmo na hipotese em que é bem uma representação de figura mascarada, não é possível concluir que povos Krahô, Wauja ou Umutina vieram pintar na Chapada Diamantina.

A identificação de possíveis máscaras oferece novas informações sobre as pinturas, que passariam a serem representadas com adornos – um detalhe que podemos até encontrar em outra representação do mesmo tipo, apesar de levemente diferente:

 

 

Aqui, a presença de um vestido ou adorno é muito mais evidente, mesmo se a orientação do corpo mudou – de frente, passamos de perfil.

A identificação etnica não funciona aqui – Wauja e Umutina, entre outros, vivem no coração da Amazônia, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. A identificação ritual também não – não houve Festa de Kokrit na Toca do Pepino. Mas podemos contudo propôr que se trate aqui de uma forma de representar uma máscara. É uma hipotese, de qualquer modo, que será necessário verificar em todos os sítios.