Datando agulhas em palheiros

Considerando a arte rupestre, os últimos resultados de datações em pinturas nas cavernas paleolíticas europeias mostram que as formas de representar as coisas, ou até os animais, mudam de forma quase caótica. Grafismos podem ser realizadas com traços finos, o dia seguinte esboçando apenas o contorno e a semana seguinte, novamente com traços finos. Tudo isso durante milênios.

Até quando se decide analisar o material com mais atenção, padrões gráficos são extremamente complicados a enxergar. Tomando por exemplo as representações de cavalos – apenas os cavalos – e dividindo o corpo do animal em suas partes constitutivas (peito, patas, barriga, etc.), não há estatísticas multivariadas que indicassem alguma padronização, algum cluster que possamos relacionar com um estilo definido.

O problema é que, se não há continuidade estilística, estamos reduzidos a fazer datações individuais de todo o material, pois duas representações aparentemente semelhantes não são necessariamente relacionadas. Ou seja, o estudo da arte rupestre se reduz à datação de agulhas em palheiros.

Uma pena para quem se interessa em palheiros.

A acumulação de datas pode dar a impressão que, depois de um tempo, quando teremos dados suficientes, um perfil vai emergir naturalmente dos resultados. Considerando os avanços da pesquisa em todos os pontos do mundo, não há nenhuma certeza naquilo. Na verdade, é muito mais provável que, colocando datas e grafismos lado a lado, apenas teremos isso: duas colunas mostrando um tipo de continuidade na prática rupestre, sem correspondência com outras abordagens. No melhor dos casos, identificamos alguns breves momentos, surgindo ciclicamente, nos quais uma certa padronização fica mais aparente.

Boa parte deste problema vem da própria perspectiva com a qual abordamos o material. Nomeadamente, a arte. Acostumados a identificar estilos com períodos históricos (por exemplo, o impressionismo, na segunda metade do século 19), procuramos a mesma coisa na “arte” pré-histórica. Os resultados desta abordagem correspondem ao seu raciocínio: cíclico. Afinal, quem falou que era arte?

Um perfil caótico é interessante. Alguns diriam, eu no meio, que é muito mais engraçado que a linearidade.

Entrevista de Walter Neves

Walter Neves foi entrevista no programa do Jô, na Globo. É a parte de divulgação científica do trabalho arqueológico, tanto com publicações impressas quanto com outras mídias, apesar de todo.

http://youtu.be/LOa9ZWrmYk4

Limites

Nos artigos publicados cada ano (cada mês, na verdade), a análise das redes alcança uma série de redes diferentes, sejam elas sociais, físicas ou acadêmicas: os membros de uma associação, as economias de uma região, as células de um organismo ou as notas de rodapé de um revista famosa.

Quando os dados não evoluem com o tempo, fala-se de uma rede estática. As suas características são bastante conhecida há muito tempo, mas ainda há novos algoritmos elaborados ou refinados hoje em dia. No entanto, quando as características evoluem com o tempo, trata-se de uma rede dinâmica. E o campo de estudo deste tipo de fenômeno ainda está engatinhando.

A análise da dinâmica de uma rede, tipo aquele formado pelas ligações telefônicas realizadas dentro de um grupo durante uma ou duas semanas, não apresenta estrutura fixa, e os equilibrios parecem se fazer e se desfazer por vontade própria. O estudo da auto-organização das redes está provavelmente fazendo explodir vários cérebros ao redor do planeta.

Mickey Mouse

Afinal, existe um certo limite natural ao estudo das redes, que aparece quando se aproxima do libre-arbitre ou da vida social dos elementos que o compõem (admitindo que tenham uma, claro). Um rede representando o envio e a recepção de emails em um campus universitário pode eventualmente mostrar alguns picos, e é interessante perceber se eles obedecem aos mesmos príncipios que aqueles que regem uma rede estática, mas se os picos correspondem ao ritmo das festas estudantis, isso serve para que mais?

Quando a arqueologia processual tentou fazer a mesma coisa, ou seja estabelecer formulas que permitiriam interpretar com todo rigor os traços encontrados nos sítios, falou-se em leis de Mickey Mouse:

“O tamanho da aldéia San é diretamente proporcional ao número de casas que o compõem.”

Do seu lado, as pinturas rupestres propõem uma rede que deve ser entendida dentro da realidade da pré-história. Estamos muito longe de poder observar, dia após dia (ou até milênio após milênio), as modificações e comportamentos novos que mudaram o equilíbrio da rede. Contudo, sabemos que grupos humanos utilizaram sucesivamente a mesma interface para comunicar, acrescentando um após o outro cada uma das pinturas que encontramos hoje.

O exemplo o mais próximo que me venha na mente, é aquele do catálogo de uma biblioteca. A medida que adquire novos livros, a sua coleção cresce em diversas direções: por exemplo, pode comprar mais livros de filosofia que de botânica. Se ela não joga fora nem perde nenhum livro, e se ninguém vem robar, o seu catálogo estará em constante expansão.

Mas o que acontece se um empregado, vítima de licenciamento indévido, decide de se vingar apagando a data de publicação de cada um dos livros que compõem o catálogo? Ainda poderemos entender a forma com a qual a biblioteca se constituiu desde a sua criação? É nesta situação que nós encontramos com a arte rupestre: um imenso catálogo de pinturas cuja data de criação não possuimos.

Então, o que temos?

Caderno 22/05/2009

Ventura

Os sítios são chamados Toca do Pepino e Toca da Figura. Ambos apareceram em baixo da linha rochosa que domina o vale. Dos dois lados do rio, as margens se elevam numa centena de metros até chegar nos primeiros afloramentos, as serras cor de rosa típicas dos arenitos. Com a erosão, alguns estratos desabaram, formando abrigos naturais que podem alcançar quarenta ou cinqüenta metros quadrados cada.

Hoje, mesmo com a passagem dos garimpeiros, as paredes ainda estão cheias de pinturas. Vermelhas, amarelas e brancas, as vezes apagadas ou danificadas. Foram pintadas em uma época remota, sem que possamos determinar exatamente a sua idade. As técnicas clássicas de datação, o Carbono 14 e a termoluminação, não funcionam. As técnicas experimentais de arqueomagnetismo estão mal adaptadas para as pequenas quantidades de pigmentos minerais presentes nas pinturas, e a oxidação química do plasma ainda está em desenvolvimento. Eis toda a fraqueza da pré-história brasileira: as referências temporais estão extremamente pobres.

Os motivos, ao contrário, formam um testemunho impressionante sobre as sociedades que os fizeram: estilisticamente, estas pinturas relevam da Tradição Nordeste, identificada no sítio da Pedra Furada, do outro lado do Rio São Francisco. É a tradição a mais antiga, datada entre 10.000 e 6.000 antes do Presente. Os estilos gráficos posteriores; chamados Agreste e São Francisco (ou Geométrica), não alcançam o nível de detalhes e de fineza da Tradição Nordeste, e as figuras se tornam hieráticas, individuais, e cada vez mais abstratas.

4.000 anos constituem um período grande de mais, sobretudo quando as cenas pintadas representam tecnologias atribuídas, na Europa e na Ásia, à Revolução Neolítica (domesticação, agricultura, aldeias). Na frente destas fontes, a interpretação estilística não é mais suficiente.

Os resíduos de carvão vegetal descobertos nos dois sítios permitirão de obter uma estimativa da ocupação humana. Ainda será preciso decidir se as pinturas estão associadas, e de todos os painéis, quais delas. É um trabalho de formiga, sem dispor de um meio seguro de medir a sua profundidade.