After Earth

Ficção científica pós-apocalíptica. Às vezes, o gênero provoca uma reflexão profunda sobre a natureza humana e a sua incontrolável empatia pela extinção de massa. Não é o caso com este filme. Apesar de não oferecer grandes coisas e de ter influências nefastas da cientologia, After Earth tem uma cena interessante. Em determinado momento, Kitai se encontra perdido e isolado numa caverna, na qual acha pinturas rupestres. Um momento depois, ele aproveita a boa ideia para se localizar na sua missão.

Pequeno exercício. O alfabeto latino utilizado pelo jovem herói desaparece e deixa um eventual observador do futuro (pós-pós-apocalíptico) com a única percepção de uma combinação de traços geométricos e figurativos. O que faria?

Segregaria provavelmente três grupos, baseados no estilo e nos eixos da representação. Assim teria um tipo A, formado pelos grafismos em preto e alinhado no eixo 1; um tipo B, reunindo os grafismos geométricos brancos e seguindo o eixo 2; e um tipo C, com os dois grafismos figurativos no eixo 3. Embora não há sobreposições que confirmam as diferenças cronológicas entre os tipos, o estilo e o alinhamento são bastante claros.

Assim sendo, teria três ocupações com estilos distintos, dos quais seria lógico inferir três identidades étnicas ou culturais. A única forma de avançar neste tema consistiria em aguardar a descoberta de outros sítios com grafismos que poderiam ser relacionados com estes. Sem isso, não haveria a menor possibilidade de continuar além de uma simples descrição. Eventualmente, outro sítio poderia apresentar apenas um dos três tipos de forma isolada ou, ao contrário, mostrar novamente os três juntos. A recorrência o obrigaria então a considerar a possibilidade de uma ligação entre os tipos.

Sem o código alfabético – ou o spoiler do filme – não há como encontrar a verdadeira articulação e a lógica dos grafismos. O jovem herói encontrou um pedaço de carvão e outro de calcário. Estes mesmos que as análises das propriedades físico-químicas dos pigmentos revelariam claramente. Resolveu então fazer uma composição policromática com linhas e desenhos.

Para o honesto pesquisador, no entanto, isso significa a ingrata obrigação de criar categorias iniciais, sabendo que somente correspondem àquilo que está vendo neste momento. Sabendo que cortam brutalmente o material disponível em conjuntos ad-hoc. Que são os primeiros esforços, com os quais todos os próximos serão impiedosamente testados e comparados. “Não há outro jeito,” é a sua única consolação. Somente as recorrências e as variações aparecendo com descobertas ulteriores permitiriam estender o domínio da pesquisa. E se aproximar um pouquinho mais daqueles que pintaram.

O resto do filme é besta e linear. Ao contrário, num campo complexo como o estudo dos grafismos pré-históricos, a dinâmica é sempre torta. E às vezes, de maçã.

10.000 BC

Apesar dos erros cronológicos e de um roteiro muito básico, há coisas interessantes no filme 10.000 BC. Não há dúvida que mistura armas de metal (4.000 BCE), cavalos (4.500 BCE), grãos de milho (3.000 BCE nas Américas, 1.500 CE na Europa), pirâmides (primeiros mastabas em 3.000 BCE), mamutes domesticados (nunca) com uma história de amor paleolítica. Poderiamos argumentar que, enquanto a primeira dinastia egípcia estava desenvolvendo a arquitetura, existiam também povos caçadores-coletores nômades ou semi-nômades. Mas basicamente, é um grande bazar de elementos sem relações entre si, que certamente não tem lugar no final do Pleistoceno. Há, no entanto, alguns detalhes interessantes.

  • Primeiro, a grande caça ao mamute no início do filme corresponde, grosso modo, ao conceito de caçadores especializados em grandes presas. Em frente ao rebanho de animais, começa busca para o macho dominante, que deve liderar o grupo inteiro na sua fuga por uma rota escolhida pelos caçadores: iniciar a caça com outro indivíduo levaria à sua dispersão, e implica uma longa observação das dinâmicas de grupos animais. Os caçadores utilizam então os acidentes do terreno para montar uma emboscada. A armadilha, uma grande rede de corda, é destinada à captura de um único indivíduo – e não à matança generalizada do rebanho. É interessante ver que a escolha desta cena pelos realizadores é vinculada à necessidade de um membro da comunidade matar o animal para determinar o próximo chefe, enquanto poderiam simplesmente atirar todos juntos (o que se tornaria também mais fácil e seguro).
  • Segundo, na primeira aldeia encontrada, durante a grande expedição para o resgate dos membros da tribo que foram levados pelos vilões (mercenários, provavelmente), um paredão rochoso vizinho serviu para registrar diversoseventos, tanto míticos (a história do tigre-dente-de-sabre) quanto históricos, como a captura dos escravos e o seu destino.
  • Enfim, logo em seguida, os personagens principais encontram diversas outras comunidades locais que se distinguem e se reconhecem umas das outras, ou por traços fisiológicos particulares, ou por um vestuário característico. Marcadores visuais tão claros indicam a construção de um tecido de relações ou contatos entre os grupos, necessários para definir a sua identidade própria em frente ao outro.

O resto do filme é uma história redondinha. Há um leve toque de “honestos bárbaros”, presente também em recentes produções survivalistas: quando a civilização moderna desaparece, por razões diversas, os indivíduos estão obrigados em voltar a viver como na idade média ou, no melhor dos casos, no século XIX (seriados como Jericho, Revolution, Dead Man Walking ou, em certa medida, Terra Nova, etc.).