Comunicação?

Analisamos os motivos rupestres enquanto formas de comunicação social. A abordagem não tem a pretensão de ser aplicada ao corpus inteiro de grafismos rupestres. Do ponto de vista teórico, a transmissão de informações entre indivíduos ou grupos de indivíduos é apresentada como uma estratégia de sobrevivência muito eficiente. Os primatólogos apresentam o conceito de “libertação da proximidade” como uma das marcas distintivas da humanidade.

Apes and monkeys depend on face-to-face contact to forge and affirm the social bonds that structure their networks of allies. What a primate cannot see, hear or smell does not concern them. Dispersal, driven by the fission and fusion of primate groups as they look for food, often diminishes rather than enhances social networks. By contrast, humans regularly create alliances between people who have never met or who encounter each other infrequently. Hence the importance of proximity for social life is released. Social relationships are uncoupled from spatial proximity through the mediation of culture and language (Gamble 2007: 211).

A extensão das formas de relacionamento além dos limites da visão direta representa, portanto, um elemento fundamental para entendermos a complexificação de uma sociedade, desde as interações entre grupos familiares até nas coletividades mais numerosas. Neste aspecto, as diversas formas de comunicação, seja a linguagem ou a escrita, podem ser consideradas como soluções para contornar o problema do tempo e da distância: os calculi encontrados em cidades da Mesopotâmia, por exemplo, facilitavam a contabilidade e as trocas entre locais distantes, possivelmente desde 8000 BCE (ver Schmandt-Besserat 1992). Por outro lado, a manutenção e o desenvolvimento de amplas redes sociais, com relações de cooperação e de reciprocidade, é reconhecido em populações de caçadores-coletores.

The evolutionary relevance of social networks is also suggested by their role in cooperation. Evolutionary theories of cooperation rely on explicit or implicit assumptions regarding social structure. Direct reciprocity assumes that the same individuals will encounter each other repeatedly. Similar conclusions have been reached regarding indirect reciprociy. Other theoretical models of kin selection, generalized assortativity, group competition ands social networks have also explicitly recognized the importance of population structure, showing that cooperation can evolve if individuals tend to interact with others of the same type (cooperators with cooperators and defectors with defectors) (Apicella & al. 2012: 497).

Se os aspectos teóricos da importância da comunicação nas sociedades humanas não surpreendem, a relação entre ela e os vestígios arqueológicos, de natureza exclusivamente material, pode deixar dúvidas. No entanto, a partir do momento em que, liberada da proximidade, toda transmissão de informação passa necessariamente por objetos materiais, pesquisar vestígios de comunicação entre indivíduos nos artefatos é um tema legítimo para a arqueologia (ver, por exemplo, Wobst 1977; Wiessner 1983; Schortman 1989; Schortman & Urban 2004; Knappett 2011).

A questão, portanto, concerne a possibilidade de encontrar estes traços em determinado corpus de vestígios arqueológicos, a saber, os grafismos rupestres da região Nordeste do Brasil.

A. O primeiro componente concerne a relação entre comunicação e grafismos rupestres.

De l’union recherchée entre les images et les supports naturels à la construction symbolique des dispositifs pariétaux à partir des liaisons entre représentations, l’art paléolithique, et plus généralement préhistorique, présente les caractères graphiques fondamentaux ainsi que les structures spatiales essentielles de systèmes de représentations, dont participent les écritures. Les modes d’expression pariétale préhistorique se fondent sur la communication et sa codification par les choix thématiques et leurs relations spatiales. (Vialou :81).

Escolhas temáticas e relações espaciais implicam diretamente uma forma de comunicação, senão indicam, pela sua recorrência, a necessária preexistência um sistema de transmissão de informações. Neste caso, a repetição de diversos temas é bem atestada em diversas regiões, e as associações binárias propostas por Laming-Emperaire e Leroi-Gourhan mostram também um exemplo de organização do espaço.

Vista como meio de comunicação, a expressão gráfica permite a transmissão de informações para vários grupos de receptores (diferenciados internamente por idade, gênero, status; ou definidos por outros critérios de distinção como grupos aliados, seres humanos, seres sobrenaturais etc). […] A arte rupestre refere-se a uma intervenção voluntária e definitiva nos abrigos, com potencial para atender a diferentes finalidades. Quaisquer que tenham sido elas, seu atendimento deu-se também por meio da comunicação que a materialidade dos sítios gravados ou pintados engendrava, isto é, por meio dos significados sociais, funcionais e simbólicos que eles ajudavam a criar (Ribeiro 2008: 57).

Se temas e disposições iguais são repetidos em contextos arqueológicos diferentes, podemos inferir com bastante segurança que há uma relação entre eles. Logo, outros aspectos podem ser investigados, como a distribuição regional ou a relação com outros tipos de vestígios, para verificar a profundidade do sistema de transmissão de informações.

B. O segundo componente trata da região Nordeste do Brasil.

De fato, a análise dos motivos rupestres enquanto formas de comunicação social é apenas uma abordagem entre as demais. Torna-se necessário justificar a sua validade para este corpus de dados em particular.

Diversos elementos indicam a alta probabilidade da arte rupestre desta região ter relações particulares com os sistemas de comunicação utilizados pelas populações pré-históricas. Primeiro, ao contrário da situação encontrada na Europa, os grafismos rupestres foram geralmente realizados em ambientes abertos. Abrigos sobre rochas, paredões ou dolinas são as configurações as mais comuns, embora alguns casos de cavernas são também conhecidos – inclusive no Estado da Bahia. Permitem um fácil acesso a diversos grupos, desde os autores original das pinturas até visitantes ocasionais e, como é o caso hoje, turistas e pichadores.

Segundo, foi encontrado e classificado pelos arqueólogos da Missão Francesa no Piauí, ainda na década de 1970, um importante conjunto de representações figurativas. Para este tipo de grafismo, a pesquisa é capaz de identificar as cenas, as posições, os seres envolvidos (humanos e animais). Ao contrário, quando se trata de motivos geométricos ou abstratos, a totalidade do código se perdeu – deixando apenas o jogo das cores, das formas, e da disposição espacial.

Enfim, as pesquisas realizadas em diversas regiões do Nordeste identificaram uma categoria específica de cenas figurativas, caracterizadas como emblemáticas. As suas características são a repetição, em lugares distantes, de “grafismos representando cenas cerimoniais ou mitos cujo significado nos escapa” (Martin 2007: 246). Indicam uma forma de comunicação entre indivíduos distantes.

Esta base contextual serviu, até hoje, para concluir em relações verticais entre as diversas regiões onde estas manifestações gráficas foram identificadas. Os processos dinâmicos os relacionando foram definidos em termos de difusão e de diáspora (Martin & Guidon 2010).

O tema dos grafismos rupestres do Nordeste do Brasil enquanto sinais de comunicação e de transmissão da informação constitui uma hipótese de trabalho consistente, tanto na teoria arqueológica quanto na prática da pesquisa regional. As análises morfológicas não tem o propósito de formular uma cronologia para este tipo de manifestações, nem de situá-las no tempo. É utilizada, primeiramente, para investigar o tipo de processos e de relações que existiam entre diversos grupos humanos.

Heterarquia

A complexidade pode ser definida como medida relativa do número de partes existindo dentro de um sistema e do número de relações internas entre estas partes (SASSAMAN 2004: 231). Enquanto conceito, é, portanto, intimamente relacionada com as abordagens sistêmicas, desenvolvidas a partir dos anos 60: « Podemos defender a ideia que a perspectiva sistêmica – delinear subsistemas, especificar as suas relações hierárquicas e horizontais, e identificar interações matéria-energia entre os subsistemas e entre o sistema e o ambiente – constitui literalmente o núcleo do processualismo » (O’BRIEN, LYMAN & SCHIFFER 2005: 75).

Duas formas de intensificação são identificadas nesta ideia: a primeira, vertical, é geralmente associada à complexidade. Trata-se dos níveis de hierarquização interna numa determinada sociedade, ou entre diversas sociedades. O surgimento de classes, castas ou linhagens cujo estatuto diferenciado é transmitido para as gerações seguintes. A segunda forma, menos conhecida, corresponde à intensificação horizontal – as interações entre grupos distintos. Estas duas dimensões da complexidade não são necessariamente presentes ao mesmo tempo numa única sociedade, e há exemplos de hierarquização interna em situação de relativo isolamento, tanto quanto ocorrência de interações entre grupos considerados igualitários.

Voltando às origens…

O tema da complexidade em arqueologia tem suas origens na corrente evolucionista e, sobretudo, na fase neo-evolucionista que foi desenvolvida na década de 50-60. Neste momento, a busca por padrões generalizantes levou diversos autores a definir uma escala de desenvolvimento cultural para as populações humanas. Em 1962, Elman Service publicou um esquema linear para a evolução das formas primitivas de organização social, baseada em quatro estados (SERVICE 1962):

O trabalho classificatório de Service deve ser considerado junto com os diversos outros esforços de racionalização da pesquisa arqueológica. No mesmo período, Betty J. Meggers relacionou os estágios de desenvolvimento cultural com o meio ambiente, tipificando quatro categorias de vegetação pelo seu potencial agrícola (MEGGERS 1954). A definição de grandes categorias permite, entre outras aplicações, elaborar formulas matemáticas destinadas a medir a articulação dos diversos componentes dos vestígios arqueológicos de forma científica (ver, por exemplo, WILMSEN 1973).

Embora seja possível identificar arqueologicamente cada uma das etapas definidas por Service, e se as categorias correspondem geralmente à evolução das sociedades clássicas, a definição de um quadro deste tipo levanta duas perguntas principais:

  • Não há evidência de uma evolução cultural linear, válida para todas as sociedades. Este argumento já estava presente nas críticas de evolucionismo (BOAS 1920).
  • Os diversos elementos compondo cada tipo não evoluem sempre com a mesma velocidade, e algumas sociedades podem compor o seu perfil a partir de vários elementos esparsos.

No Brasil, estas classificações foram introduzidas de cima para baixo. Nos anos 60, a maior parte do território foi definido como uma área com pouco potencial agrícola, vinculando-as imediatamente a um estado de organização social limitado ao nível da tribo. Os estudos arqueológicos foram, desse modo, dirigidos principalmente pelos diversos elementos que correspondiam às duas categorias de bandos, geralmente associados às populações de caçadores-coletores, e tribos, para as populações horticultoras ainda presente na época do contato com os europeus (herança desta época, alguns artigos da imprensa ainda veiculam estes modelos lineares obsoletos).

O desenvolvimento das pesquisas em todas as regiões do país permitem escapar, pouco a pouco, destas categorias rígidas e propor estudos sobre aspectos que, pelo fato de não corresponder com elas, eram simplesmente descartados. Estas novas abordagens permitem, ainda, questionar duplas de conceitos como estrutura social igualitária ou hierarquizada, modo de subsistência generalizado ou especializado, e as suas respectivas utilizações.

Cristiana Barreto apresenta três exemplos de sociedades pré-históricas que foram inicialmente classificadas em determinadas categorias e que, hoje, apresentam indícios de um desenvolvimento cultural diferente: os sambaquis do Sudeste, as aldeias circulares da região Central, e as ocupações do Rio Negro como o sítio Hatahara. A autora conclui que os modelos clássicos de ocupação do território brasileiro não são adequados para enquadrar os dados recentes da pesquisas arqueológicas. Entre outras implicações, ela destaca que existiram sociedades com certo nível de complexidade em áreas com potencial agrícola ainda menor do que as margens de rios na Amazônia. Insiste também no fato que as estruturas hierárquicas observadas na etnografia podem refletir padrões de diferenciação social e de inequalidade que tinham outra natureza no passado (BARRETO 2005).

A proposta de um esquema linear para a classificação dos vestígios arqueológicos esteve presente também nos estudos em arte rupestre desde o início do século XX. As primeiras classificações das gravuras e das pinturas encontradas em cavernas europeias foram todas elaboradas a partir de uma relação rígida entre estilo e cronologia: uma forma de representação correspondendo a uma determinada época.

O Abbé Henri Breuil propôs uma tipologia das representações rupestres do Paleolítico em dois grandes cíclos, aurignaciano e magdalenense, que se sucederam no tempo, e cujos elementos constitutivos eram mutualmente exclusivos (GROENEN 1992: 78-79). Com o desenvolvimento do método de datação por carbono 14, após a Segunda Guerra Mundial, foi possível confrontar este modelo com dados obtidos diretamente das pinturas. Breuil contestou vigorosamente os resultados da datação de diversos painéis em Lascaux, na França, porque desestabilizavam sua classificação (BREUIL 1954). Apesar de conceber diversos ciclos e, portanto, evoluções distintas para cada um deles, não considerou como válida a hipótese de ocorrências não lineares no seu esquema.

O mesmo fato ocorreria cinquenta anos mais tarde, com o desenvolvimento da técnica de datação por AMS e os resultados obtidos em Chauvet, também na França. Além de recuar a antiguidade das primeiras representações rupestres, Chauvet constitui um exemplo de desenvolvimento não-linear: uma forma mais complexa de representação gráfica antecedendo formas consideradas menos desenvolvidas (VALLADAS & al. 2005 ).

As dificuldades em classificar um material foi bem sintetizada por André Leroi-Gourhan, apesar dele ter elaborado também uma cronologia linear baseada em quatro estilos, já na segunda metade do século XX: « O objetivo que parece fundamental para o estudo da multidão das obras é de determinar a sua posição no tempo e no espaço. No entanto, tais noções são, de certa maneira, exteriores à própria obra: ao contrário dos objetos da cultura material como as ferramentas e as máquinas, cujo poder não paro u de crescer ao longo do tempo, as figuras evoluem mais em uma orbita circular do que em uma trajetória. O fato de que um pedaço de carvão ou algumas gramas permitam desde sempre realizar figuras, coloca a arte figurativa praticamente fora do campo cronológico, ele dá chances iguais ao Magdalenense de -10.000, ao Saharense de -6.000 e ao europeu do século XX » (LEROI-GOURHAN 1987: 294).

Heterarquia: primeira aproximação

Estes diversos exemplos mostram que, da mesma forma que a arte rupestre paleolítica pode ter passado por diversas etapas ou ciclos paralelos, o desenvolvimento das populações pré-históricas no Brasil não seguiu uma padronização linear, e as formas consideradas mais simples pelos estudos etnográficos podem mascarar experiências complexas anteriores.

Desde os anos 70, a complexidade invadiu o campo da pesquisa sobre as populações de caçadores-coletores. Inicialmente abordados de forma indiscriminada, a partir de critérios como relações igualitárias e flexíveis, diversos autores reconhecem hoje formas de diferenciação social inerentes à todas as sociedades humanas (PRENTISS & KUIJT 2004: viii).

Dois fatores explicam essa mudança: por um lado, a pesquisa arqueológica permitiu novas abordagens sobre as origens das populações de caçadores-coletores até então consideradas como excepcionais, como também sobre populações pré-históricas que não deixaram registros etnográficos. Por outro lado, as populações modernas de caçadores-coletores foram inseridas historicamente e perderam o seu estatuto de sobreviventes inviolados das sociedades primitivas (SASSAMAN 2004: 228-229).

O conceito de heterarquia foi proposto por Crumley, inspirada por novas pesquisas sobre caós e desenvolvimento de sistemas auto-organizados, que o definiu como « as relações entre elementos quando não são classificadas [unranked] ou quando possuem o potencial para serem organizados de várias maneiras diferentes. […] A importância relativa das bases de poder de comunidades ou indivíduos muda em resposta ao contexto da demanda e dos vários (e regularmente conflituosos) valores que resultam da reorganização contínua das prioridades » (CRUMLEY 1995: 3).

Sassaman destaca a utilidade deste complexo para o estudo da mudança social, uma vez que as sociedades não seguem um desenvolvimento padrão que vai de simples para complexa, e podem seguir vias alternativas ou entrar em brutal colapso, dependendo dos contextos. Consequentemente, haveria o risco de considerar um único grupo como simples numa parte do ano, e complexo numa outra (SASSAMAN 2004: 232-233).

Embora haja um certo consenso para reconhecer a inequalidade institucionalizada como atributo fundamental das sociedades complexas, ainda há pouca definição das suas formas que essa inequalidade deve assumir: indivíduos, grupos ou indivíduos de um grupo. Há dúvida também na questão da escala, pois um grupo considerado como simples pode entrar numa relação institucionalizada com outro e formar uma entidade mais complexa.

A questão fundamental em relação à complexidade reside na sua identificação nos vestígios arqueológicos. Embora a institucionalização das diferenças e da inequalidade constitui um elemento preponderante, a sua identificação não é fácil. Fitzhugh define os caçadores-coletores complexos como « grupos sociais principalmente organizados em um modo de produção forrageador, com inequalidade institucionalizada (hierarquia ou estratificação) e uma estrutura organizacional integrando múltiplas unidades familiares em uma formação política mais larga » (FITZHUGH 2003: 3).

Um elemento fundamental para o estudo desta questão concerne, portanto, a possibilidade de uma identificação de unidades familiares no registro arqueológico. Em seguido, é necessário identificar o grau e a forma das interações que existem entre elas, e avaliar se elas são baseadas numa relação de igualidade ou não. Em outras palavras, o tema da complexidade é limitado pelo reconhecimento, nos vestígios, de identidades suficientemente definidas. O estudo das relações que existem entre estas identidades deve guiar uma segunda etapa destinada a identificar se há, ou não, inequalidade.

Para não concluir

Com o reconhecimento de características fora do padrão em diversos casos observados, entre outros no Brasil, o horizonte pré-histórico pode ser avaliado com uma perspectiva diferente, não limitada pelas classificações em quatro tipos culturais principais. Apesar de Elman Service ter notado a importância de coalizões, federações, ligas ou uniões e comunidades, ele nunca incluiu este aspecto no seu modelo (CRUMLEY 2005: 41). O conceito de heterarquia permite avaliar o grau de intensificação horizontal em uma determinada sociedade, seja ela composta de grupos caçadores-coletores ou de cidades francas ou de províncias unidas. A pesquisa sobre as sociedades nômadas, neste aspecto, revela toda a ambiguidade de uma tipologia na qual a agricultura tem um papel fundamental para o surgimento de estágios avançados (VASJUTIN 2005: 51).


Nodism Sketches, by Dan Zen

Referências
BARRETO, C. Social Complexity and Inequality in Ancient Amerindian Societies: Perspectives from the Brazilian Lowlands. Center for Brazilian Studies, Working Paper 63. Oxford: University of Oxford, 2005.
BOAS, F. The Methods of Ethnology. In: American Anthropologist, 22, 4, 1920: 311-321.
CRUMLEY, C. L. Heterarchy and the Analysis of Complex Societies. In: Archeological Papers of the American Anthropological Association, 6, 1995: 1-5.
CRUMLEY, C. L. Remember how to organize: Heterarchy across Disciplines. In: BEEKMAN C. S & BADEN, W. W. (ed.) Nonlinear Models for Archaeology and Anthropology. Continuing the Revolution. Aldershot: Ashgate Publishing, 2005: 35-50.
BREUIL, H. Les datations par C14 de Lascaux (Dordogne) et Philip Cave (S. W. Africa). In: Bulletin de la Société préhistorique française, 51, 11-12, 1954: 544-549.
FITZHUGH, B. The Evolution of Complex Hunter-Gatherers. Archaeological Evidence from the North Pacific. New York: Kluwer/Plenum, 2003.
GROENEN, M. André Leroi-Gourhan et la Préhistoire. In: LEROI-GOURHAN, A. L’Art Pariétal. Langage de la Préhistoire. Grenoble: Jérôme Millon, 1992.
LEROI-GOURHAN, A. Introduction à la peinture préhistorique. In: Bulletin de la Société préhistorique française, 84, 10-12, 1987: 291-301.
MEGGERS, B. J. Environmental Limitation on the Development of Culture. In: American Anthropologist, 56, 5, 1954: 801-824.
O’BRIEN, M. J.; LYMAN, R. L.; SCHIFFER, M. B. Archaeology as a Process. Processualism and its Progeny. Salt Lake City: University of Utah Press, 2005.
PRENTISS, W. C.; KUIJT, I. (ed.) Complex Hunter-Gatherers. Evolution and Organization of Prehistoric Communities on the Plateau of Northwestern North America. Salt Lake Ciy: University of Utah Press, 2004.
SASSAMAN, K. E. Complex Hunter-Gatherers in Evolution and History: A North American Perspective. In: Journal of Archaeological Research, 12, 3, 2004, 227-280.
SERVICE, E. R. Primitive Social Organization: An Evolutionary Perspective. New York: Random House, 1962.
VALLADAS, H. et al. Bilan des datations carbone 14 effectuées sur des charbons de bois de la grotte Chauvet. In: Bulletin de la Société préhistorique française, 102, 1, 2005: 109-113 .
VASJUTIN, S. A. Typology of Pre-States and Statehood Systems of Nomads. In: KRADIN, N. N.; BONDARENKO, D. M.; BARFIELD, T. J. Nomadic Pathways in Social Evolution. The Civilization Dimension Series, 5, Moscou: Center for Civilization and Regional Studies of the Russian Academy of Sciences, 2003: 50-62.
WILMSEN, E. N. Interaction, Space Behavior, and the Organization of Hunting Bands. In: Journal of Archaeological Research, 29, 1, 1973: 1-31.

Genética do Admirável Mundo Novo

O admirável mundo novo é feito de mineração em asteroídes e de ilhas artificiais em golfes árabes cheios de petróleo. Não há tempo a perder com a escavação de cacos velhos de cerâmica e de pedrinhas mal talhadas. Em poucos anos, o Brasil vai abrigar duas das três maiores hidroelétricas do planeta e organizar os dois eventos esportivos mais importantes do mundo. A obrigação de contratar um arqueólogo antes de poder construir um edifício qualquer, para ver se não haveria – por acaso, nem tem certeza – restos de fogueiras indígenas, não é mais que outro procedimento administrativo cuja única função é atrapalhar o progresso.

Este tipo de discurso volta regularmente aos ouvidos de quem estuda ou trabalha com arqueologia. Afinal, qual é a sua utilidade? Geralmente, temos – admito, eu também – uma resposta pouco convincente, tipo, “conhecer o passado é importante”, ou “como viverias se não tivesses memória?”

Hoje, vamos pegar um pouco mais pesado.

Christian de Duve é um biólogo belga que recebeu o prêmio Nobel em 1974 com Albert Claude e George Emil Palade pelos seus trabalhos sobre os organelos – das quais as mitocôndrias são possivelmente as mais conhecidas em arqueologia (ver, por exemplo, a análise da entrada nas Américas das populações indígenas baseada no mtDNA, transmitido exclusivamente pelas mulheres). Em 2009, publicou um livro chamado a Genética do pecado original: o peso do passado sobre o futuro da vida, que ele mesmo descreveu como a sua palavra final (publicou mais um em 2011, mas pouco importa). Neste livro, o autor analisa a forma com a qual o mecanismo da evolução, primeiro descrito por Charles Darwin, favoreceu a especialização do Homo Sapiens em uma máquina voltada para a satisfação de necessidades imediatas:

“A seleção natural, motor eminentemente poderoso da evolução, privilegiou em nossos genes, traços que eram imediatamente favoráveis à sobrevivência e à proliferação dos nossos antepassados, nas condições que existiam nessa época e lugar, sem atenção para as consequências ulteriores. Eis uma propriedade intrinseca da seleção natural. Enxerga apenas o imediato. Não prevê o futuro.”

Ele compara também esta especialização em certas aptidões ao pecado original bíblico, embora neste caso não haja realmente culpa, já que era a única maneira de sobreviver em meio à megafauna. O que mudou neste mundo, ao ponto que reflexos instintivos adquiridos durante milênios não sejam mais adequados para a sobrevivência da espécie? Primeiro, a megafauna desapareceu (há teorias segundo as quais foram dizimadas por grupos humanos), e o ser humano passou no topo da pirãmida alimentar. De Duve aponta a super-população, mas podemos acrescentar a super-exploração dos recursos naturais (ao ponto de tornar a mineração em asteroídes mais do que um roteiro de ficção científica), e os desequilíbrio, climáticos ou planetológicos, de origem antrópica…

Se os movimentos que nos levaram à situação atual têm a sua origem na pré-história a mais remota, importa entender melhor o que são, de onde partiram, porque foram selecionadas. Importa, sobretudo, pesquisar se, no meio dos mecanismos evolucionários (tipo, command::conquer ou divide::rule), não foram também selecionadas outras formas de organização e de retroação (embora a própria pergunta comprovasse que sim). A falha em encontrar evidências deste tipo tornaria mais complexa ainda a busca por soluções dos problemas atuais, a menos de contentarmos-nos com benções hippies.

A perspectiva genética sobre o desenvolvimento dos comportamentos humanos, introduzida por De Duve, faz aparecer a possibilidade de entender melhor a omnipresência do imediato, tanto em nossas atividades cotidianas – de Big Brother à entrega de pizzas à domicílio, passando por redes sociais conectadas 24 horas por dia – quanto em decisões políticas.

De fato, aparece também a possibilidade de entender como projetos de hidroelêtricas gigantes passam por resolver, de uma vez só, todos os problemas energéticos de um país do tamanho do Brasil. Embora as perdas em transporte de energia oscilem entre 10 e 20% da produção, não há planos para resolver este problema – ao contrário, instalam novas fontes de energia mais longe ainda dos locais onde ela é necessária.

Nesta perspectiva, uma gestão regional ou local, descentralizada, com mudanças estruturais, não é privilegiada. Geneticamente falando, a resolução de curto prazo aparece como o reflexo instintivo em frente a um problema. Segundo De Duve, somos “vítimas de uma estranhiça genética que nós deu bastante inteligência e de esperteza para conquerir o mundo, mas a sabedoria necessária para gerenciar o fruto da nossas vitórias.” Faz todo sentido quando o grupo está sob ameaça de um bando de smilodons famintos. Muito menos para um país sem guerra há mais de um século e com as perspectivas geopolíticas que conhece o Brasil.

Pelo fato de poder colocar em vis-à-vis as realidades atuais com o passado, a arqueologia ilustra perfeitamente até que ponto precisamos de uma mudança de comportamento: encontrar na bagagem genética outras formas de organização ou, para retomar uma velha expressão, de adaptação extrasomática ao ambiente.

DE DUVE, Chr., Génétique du péché originel. Le poids du passé sur l’avenir de la vie. Bruxelas: Odile Jacob, 2009.

Entrevista de Walter Neves

Walter Neves foi entrevista no programa do Jô, na Globo. É a parte de divulgação científica do trabalho arqueológico, tanto com publicações impressas quanto com outras mídias, apesar de todo.

http://youtu.be/LOa9ZWrmYk4

Datação de uma Gravura Rupestre em MG

Uma equipe formada por Walter A. Neves, Astolfo M. G. Araujo, Danilo V. Bernardo, Renato Knipis e James K. Feathers publicou os resultados da datação relativa de uma gravura rupestre encontrada no sítio da Lapa do Santo, em Minas Gerais. Dois métodos, C14 e TL, permitem avançar que a gravura foi realizada na transição entre Pleistoceno e Holoceno, 11.7±0.8 ka BP to 9.9±0.7 ka BP (ou seja, tempo atrás). Além disso, a representação de um antropomorfo com cabeça em meia-lua (c, ou caju) pode indicar contatos entre esta região e o Seridó, onde este estilo de grafismo é muito típico.

O artigo, em inglês, está disponível em http://www.plosone.org/article/info:doi/10.1371/journal.pone.0032228

Contudo, não conheço o grau de certeza que há com estes métodos de datação (TL em grãos de quartzo, com muitas amostras descartadas). Outras datações obtidas no Seridó não apresentaram datas tão remotas, e sim mais provavelmente em torno de 8000-6000 BP. Ao meu ver, a questão de saber se é, ou não, a mais antiga gravura das Américas é de pouca importância. Tampouco importa o que significa para o universo simbólico destas populações. É de maior importancia, no entanto, o fato que ela se integra, de alguma forma, dentro do corpus que já temos, e que ajude a entender-lo melhor. Neste sentido, vale destacar uma citação do artigo: “Isso sugere contatos culturais [ou não, NDC] entre grupos distante de pelo menos 1.600 km no início do Holoceno no Leste da América do Sul.”

Data Mining 29/07/11

Modelos de co-residência nas sociedades de caçadores-colhedores mostram uma estrutura social humana única

Um modo de vida de caçador-colhedor constituiu provavelmente a estutura social dominante durante a maior parte da história humana. Sustenta-se geralmente que os grupos de caçadores-colhedores consistam sobretudo em indivíduos ligados por parentesco: pais e filhos, crias, incluindo até as relações conjugais. Em um artigo publicado na revista Science em 11 de março de 2011, Hill et al. analizou os graus de parentesco de 32 grupos de caçadores-colhedores em sociedades contemporâneas (no total, 5064 indivíduos, tamanho médio de um grupo 28,8 adultos) e descobriram que estas sociedades ofereciam uma estrutura social diferentes de primatas ou vertebrados. Embora irmãos e irmãs permaneçam regularmente juntos, a maioria dos indivíduos em grupos residentes não têm relações genéticas. Ademais, ambos os sexos povem escolher em deixar o próprio grupo ou ficar, e nem a linha materna nem a linha paterna domina os grupos. Estes modelos produzem grandes redes de adultos sem parentesco e sugera que o valor seletivo inclusivo não pode explicar a extensa cooperação entre os grupos de caçadores-colhedores. No entanto, largas redes sociais podem ajudar a entender por que os humanos desenvolveram capacidades para a aprendizagem social que resultou em uma cultura cumulativa.

HILL, K. R. et al., Co-Residence Patterns in Hunter-Gatherer Societies Show Unique Human Social Structure, in Science, 331, 6022, 11/03/2001, 1286-1289.

Traduzido e adaptado de Complexity and Social Networks Blog